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Como as posturas de equilíbrio do yoga ajudam o funcionamento do cérebro

Yoga com Neurociência | 24 jun 2026 | Daniel De Nardi


Eu considero o equilíbrio uma das posturas mais importantes dentro do yoga — e não por uma questão estética ou de dificuldade. O equilíbrio deixa muito claro algo que está no centro da prática: o que a gente chama de trabalho psicofísico. Ou seja, a técnica vai além de um exercício físico que você consegue executar totalmente distraído.

Pense numa esteira ou numa bicicleta de spinning: dá pra pedalar assistindo a um filme na Netflix, e está tudo certo dentro da proposta do ciclismo. No yoga, não há coerência em praticar totalmente distraído. Por quê? Porque o yoga nasce justamente da proposta de reduzir as distrações. Isso já está colocado lá no início, por Patanjali: citta-vritti-nirodha, reduzir as flutuações da mente. Por mais que a gente tenha desenvolvido técnicas e conhecimento, esse princípio se manteve — e ele faz muito bem, porque treina a nossa capacidade de foco, de sustentar a atenção. Algo que, com o estilo de vida atual e o excesso de distração, a gente vem perdendo.

O cérebro amadurece de trás para a frente

Para entender por que o foco importa tanto, vale olhar para como o cérebro amadurece. A imagem que uso na aula mostra esse processo entre os 5 e os 20 anos de idade. As áreas mais “escuras”, puxando para o roxo, indicam regiões já amadurecidas.

  • Primeiro a parte de trás: o córtex visual amadurece cedo. Faz total sentido — não precisamos compreender o mundo inteiro de imediato; bastava enxergar para nos proteger das ameaças e dos predadores.
  • Depois a parte de cima: o córtex motor, ligado ao movimento, se desenvolve em seguida.
  • Por último a parte da frente: o córtex pré-frontal — a região das ponderações e avaliações — só amadurece de fato depois dos 20 anos.

Isso explica, inclusive, por que os adolescentes são mais propensos ao risco. Por que um campeonato de snowboard radical é dominado por jovens de até uns 22 anos? Porque um adulto olha aquilo e pensa “não faço, vou me machucar”, enquanto o jovem ainda não calcula tão bem o risco — ele vai lá e faz. Faz parte do nosso processo natural de desenvolvimento cognitivo.

A rede de modo padrão: a narrativa que a gente repete

A partir dos 20 e poucos anos, com o pré-frontal mais maduro, a gente vai consolidando uma forma de lidar com as diferentes áreas da vida: amigos, saúde, relacionamentos, família, dinheiro, carreira, sonhos. Esses caminhos se solidificam no que a neurociência chama de rede de modo padrão (default mode network) — a maneira padronizada como o seu cérebro responde aos estímulos.

Quando surge um problema de saúde, por exemplo, você já tem uma resposta pronta: ou encara com tranquilidade (“consigo resolver, sem problema”), ou entra em desespero. E isso vale para cada área. Ninguém lida bem com tudo: quem se dedicou muito à carreira costuma ter alguma defasagem na família; quem priorizou um lado pode ter negligenciado outro. As áreas que mais nos importam são também as que mais nos estressam — e é justamente nelas que a gente tende a ruminar.

O problema é que essa narrativa que você criou não necessariamente representa bem a realidade. Talvez seja só uma criação sua. Como só temos a nossa própria vivência, temos a sensação de que aquilo que vivemos é “o real” — e muita gente sequer considera a opinião de um terceiro, seja um psicólogo, seja um amigo, que poderia dizer “olha, talvez essa visão que você tem de si mesmo nessa área não esteja correta”. Aqui dialogamos com o trabalho de Daniel Kahneman: reconhecer que a forma automática como interpretamos as coisas está cheia de atalhos e distorções.

Onde entra o equilíbrio

É aqui que a postura de equilíbrio cumpre um papel especial. Por ser psicofísica, ela envolve ao mesmo tempo o corpo e a parte cognitiva: exige que você se concentre em algo. Você até pode executar a técnica de forma mecânica — mas, se você se concentrar de verdade, a performance é completamente diferente. O equilíbrio, nesse sentido, se aproxima de um processo meditativo: ele força a concentração.

Quando você sustenta a atenção por mais tempo — numa meditação ou num exercício de equilíbrio —, o cérebro sai da rede de modo padrão. E sair desse padrão abre uma possibilidade de reavaliação. Aquela narrativa repetida (“sou um fracasso no amor”, “trato mal as pessoas”, ou o oposto, “o problema nunca é meu”) pode, por um momento, afrouxar. O cérebro tem a chance de criar um outro caminho, ou de enfraquecer ligações já estabelecidas, e você consegue se observar de fora — como se tivesse um segundo agente acompanhando o seu próprio comportamento. É quase uma sessão de terapia conduzida por você mesmo.

Um cuidado importante: não é iluminação, é reavaliação

A gente muda muito pouco depois dos 25. Temos a sensação de que mudamos bastante, mas, na prática, continuamos muito parecidos com aquele jovem de vinte e poucos anos — as ambições, os sonhos e as ideias são bem semelhantes. Há uma frase atribuída ao filósofo romeno Cioran que captura isso: aos cinquenta anos, ele dizia estar, havia décadas, apenas confirmando aquilo que já sabia. Modificar essa estrutura é difícil, porque o cérebro já tem um jeito consolidado de responder ao dia a dia.

Mas é preciso cuidado com a outra ponta. Sair da rede de modo padrão não significa encontrar a verdade. Aquilo que você revisita depois de um exercício meditativo também não é necessariamente verdadeiro — é apenas uma possibilidade de reavaliação. Não existe um estado de “agora me iluminei e descobri a verdade”, especialmente em questões subjetivas. Não há transcendência nem conhecimento 100% certo.

E há um risco real no excesso. Se você buscar sair da sua rede de modo padrão o tempo todo — meditando quatro horas por dia, ou por meios como álcool e drogas —, acaba perdendo a própria personalidade e identidade, sem saber lidar com as situações da vida. Isolar-se e achar que “é só meditar e ser feliz” não é verdade. O ponto de equilíbrio está na dose: de cinco a dez minutos de concentração já abrem espaço para sair do automático e rever determinadas crenças e atitudes.

O que levar dessa aula

Entender a rede de modo padrão é entender o quão perigoso é viver sempre achando que estamos certos só porque é a nossa própria experiência. As técnicas de equilíbrio, praticadas com concentração genuína, são uma ferramenta concreta para treinar o foco e, de quebra, abrir pequenas janelas de reavaliação sobre como vivemos. Para quem ensina, esse é um argumento a mais para conduzir a prática com seriedade — e para mostrar aos alunos que cada postura de equilíbrio é também um exercício de atenção, com efeito direto no funcionamento do cérebro.


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