Eu acompanho a obra do Paolo Sorrentino há tempos. Vi A Grande Beleza, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e desde então sempre gostei do trabalho dele — mesmo sabendo que é um cinema diferente do que a gente está acostumado. Ele tem um ritmo próprio, mais lento, mais contemplativo. Mas é justamente aí que mora o que mais me atrai no que ele faz.
Por que eu gosto do cinema do Sorrentino
A primeira coisa é o ambiente. Os filmes do Sorrentino são sempre muito bonitos — ele cuida demais da fotografia, da composição de cada cena. Mas, para além da beleza, existe uma ideia que se repete na obra dele e que eu acho fascinante: ele faz relações constantes com temas defendidos pela própria Igreja — o transcendente, o milagre, a eternidade, o perdão — só que para mostrar que tudo aquilo que a gente associa ao sagrado também acontece nas coisas do cotidiano. De outras formas, mas na mesma essência.
Em A Mão de Deus, por exemplo, ele conta a chegada de Maradona ao Napoli como se fosse um milagre: do nada, o maior jogador do mundo parou ali, e a cidade vive aquilo como algo quase divino. Em Juventude, ele trata da eternidade — outra questão típica da religião, o que acontece para além — através de pessoas muito ricas que se internam numa clínica na Suíça em busca de longevidade. Em Loro, sobre Berlusconi, ele volta à questão do poder. Os personagens do Sorrentino quase sempre são pessoas muito bem-sucedidas e, ao mesmo tempo, profundamente blasés — sem grande motivação para viver.
A Graça: o perdão que sai da Igreja e entra no Estado

Em A Graça, o protagonista é um presidente — mais uma figura de poder, e mais um homem blasé, sem uma motivação clara na vida. E o título já carrega o jogo que o Sorrentino propõe: “a graça” é algo transcendente, ligado ao perdão, a algo divino. Só que aqui essa graça é uma decisão que ele precisa tomar — conceder, ou não, o perdão a duas pessoas que cometeram crimes.
O filme inteiro passa por esse conflito: dar a graça ou não dar. E o ponto que eu acho mais bonito é exatamente esse deslocamento: o perdão, que em princípio seria uma coisa de Deus, da Igreja, aparece aqui na figura do Estado, do presidente que concede clemência a alguém. De novo aquela ideia — o que a gente costuma ver na religião também está no nosso dia a dia, só que sob outra forma.
E tem um detalhe importante: o personagem não é necessariamente um homem religioso. Ele até conversa com o Papa, transita por esse universo — mas, na hora de decidir, ele decide com base no que é a lei do Estado, e não no que ele pensaria como questão transcendental. A relação com a religião existe, mas não como fé: como moldura, como linguagem para falar de algo que, no fundo, é muito humano e muito terreno.
Vale a pena assistir
Para mim, vale muito. É mais um Sorrentino que vale a pena conhecer — com aquela fotografia caprichada, o ritmo prprio dele e essa leitura do transcendente dentro do cotidiano que atravessa toda a obra. A Graça está disponível no Prime Video. Se você gosta de um cinema que pede atenção e recompensa quem assiste com calma, recomendo.
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