Existe uma pergunta que parece filosófica demais para ter resposta, mas que a Neurociência vem respondendo com uma clareza desconcertante: de onde vem a consciência?
Num diálogo com o apresentador Bial, o neurocientista português António Damásio, um dos maiores cientistas vivos no estudo do cérebro e das emoções, dá uma resposta que, nas palavras dele, “à primeira vista pode parecer errada de tão simples”. E é justamente essa simplicidade que reorganiza tudo.
Primeiro a gente sente. Só depois a gente sabe.
A provocação do diálogo é precisa: o sentir é anterior ao saber. E é no advento do saber que tem origem a consciência.
Damásio confirma e vai além. Para ele, nós, seres humanos e até seres anteriores aos humanos, começamos a ter consciência exatamente no momento em que começamos a ter sentimentos sobre a vida do corpo.
Atenção a um detalhe que muda tudo: ele não está falando de raiva, medo ou amor. Está falando de sentimentos muito mais primitivos e fundamentais: a fome, a sede, a dor, o mal-estar, o bem-estar.
Damásio chama isso de sentimentos homeostáticos, porque têm a ver com o nível de regulação da vida (a homeostase) num determinado momento. São o corpo informando você, em tempo real, como anda a vida lá dentro.
Por que a consciência precisou existir

Aqui está o salto do argumento. Esses sentimentos são tão essenciais que precisavam, necessariamente, ser conscientes para servir de alguma coisa.
Pense no exemplo que ele mesmo dá: se você tem um sentimento de dor, mas não tem consciência dessa dor, para que serviria o sentimento? Para nada. Seria uma coisa inteiramente desnecessária.
Quando alguém, pela primeira vez no universo, sentiu dor, surgiu junto a possibilidade de descobrir onde era essa dor. Neste dedo, neste momento, por causa deste corte. A dor é a consequência do que aconteceu no corpo e, ao mesmo tempo, é a informação, a sabedoria necessária para você saber o que aconteceu e poder agir.
Em outras palavras: a consciência não apareceu como um luxo do intelecto. Apareceu como necessidade da vida. Ela é o corpo se tornando legível para si mesmo.
O que isso tem a ver com o Yoga
Quando você fecha os olhos numa prática e leva a atenção para a Respiração, para a tensão no ombro, para o calor no abdômen, você não está se desligando do mundo. Você está fazendo exatamente o movimento que, segundo Damásio, deu origem à própria consciência: escutar os sentimentos homeostáticos, ler o estado da vida dentro do corpo.
A interocepção, essa capacidade de sentir o corpo por dentro, não é metáfora espiritual. É o terreno fisiológico onde o senso de si se constrói. O Yoga, quando praticado com base científica, é treino direto dessa escuta. É por isso que ele regula, favorece o repouso e sustenta a atenção: ele atua na raiz, no nível em que sentir e saber se encontram.
O Yoga propõe essa escuta há séculos. A Neurociência, agora, valida, corrige e explica por que ela funciona.
Aprofundar na obra de António Damásio
Se esse trecho de poucos minutos já reacomodou algumas peças, imagine a obra inteira.
Na Formação Professor de Yoga com Neurociência, dedicamos um estudo completo a toda a obra de António Damásio, um dos maiores neurocientistas do mundo. De O Erro de Descartes a A Estranha Ordem das Coisas e Sentir & Saber, são aulas que destrincham, em linguagem clara e aplicada à prática, os conceitos de homeostase, sentimentos, marcadores somáticos e a origem corporal da consciência, e mostram como tudo isso fundamenta um Yoga baseado em evidências.
Porque entender o que acontece no corpo não tira o encanto da prática. Aprofunda.
Assista ao trecho completo de António Damásio com o Bial no vídeo acima e, se quiser ir além, conheça a Formação Professor de Yoga com Neurociência da YogIN® Academy.
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