Existe uma contradição no centro da sua saúde: o exercício físico é uma das coisas que mais protege a sua vida e, ao mesmo tempo, é algo que o seu corpo foi feito para evitar. Você não nasceu com vontade de se exercitar. Ninguém nasce. Repare na diferença: você vai feliz para a sua cama, vai com prazer para a mesa, mas raramente acorda animado para treinar. Para o exercício, sempre é preciso uma força mental que a fome, o sono e o Relaxamento não exigem. Entender o porquê dessa resistência muda completamente a forma como você encara a atividade física.
Nesta aula da Formação, usamos o trabalho de Daniel Lieberman, paleoantropólogo de Harvard que estuda a evolução da biologia humana, para responder a uma pergunta que parece simples e não é: por que algo que nunca evoluímos para fazer faz tão bem para a gente? As referências são dois livros dele, A História do Corpo Humano e Exercitado: Por que algo que não nascemos para fazer é tão saudável e recompensador. Lieberman faz pesquisa de campo: viaja para regiões onde ainda existem povos caçadores e coletores, na Tanzânia, na África e até na América do Sul, e convive com essas pessoas para observar o quanto se movem, quanto tempo ficam sentadas, como dormem e como comem. É o mais perto que conseguimos chegar de enxergar como vivíamos na origem.
Não evoluímos para ser saudáveis
O ponto de partida é desconfortável. Lieberman resume assim o argumento central do livro:
“Não evoluímos para ser saudáveis. Fomos selecionados para ter o maior número de filhos possível, sob condições diversas e desafiadoras. Em consequência, nunca evoluímos para fazer escolhas racionais com relação ao que comer ou como nos exercitar em condições de abundância e conforto. Mais ainda, interações entre os corpos que herdamos, os ambientes que criamos e as decisões que por vezes tomamos puseram em movimento um insidioso circuito de retroalimentação. Contraímos doenças crônicas fazendo o que evoluímos para fazer, mas sob condições às quais nossos corpos não estão adaptados. E depois transmitimos essas mesmas condições a nossos filhos, que também adoecem.”
A seleção natural não está interessada na sua qualidade de vida. Ela não está nem aí para o que você acha ou para o que eu acho. Seleciona o que ajuda a espécie a se reproduzir e seguir adiante, e segue uma lógica própria. O corpo que você herdou foi moldado para um ambiente que não existe mais, e é aí que mora o problema. Pior: o ciclo se retroalimenta, porque transmitimos aos filhos não só os genes, mas o ambiente e os hábitos que adoecem.
As doenças de desajuste
A biologia humana muda devagar. O ambiente que criamos mudou rápido. Esse descompasso gera o que Lieberman chama de doenças de desajuste: condições que surgem porque o nosso corpo antigo passou a viver num mundo novo. Algumas são simples, como dor nas costas e pé chato. Outras são graves, como diabetes, problemas cardíacos e vários tipos de câncer, todos em crescimento. Você passa o dia sentado numa cadeira confortável, comprime a musculatura, e a dor nas costas aparece. Você consome o mesmo tipo de alimento em excesso todos os dias, e a insulina desregula até desenvolver diabetes.
Repare na lógica: são doenças que surgem de fazer aquilo que sempre fizemos, só que em condições para as quais o corpo não foi preparado. Por isso a palavra mais importante aqui é evitar. Você não tem controle total sobre a sua biologia, ninguém tem, e há informações dentro do seu DNA que você nunca vai eliminar. Mas determinados comportamentos reduzem a probabilidade de que esses gatilhos disparem. Mais valioso do que conhecer o tratamento mais recente para a diabetes é entender por que a diabetes acontece e o que você pode mudar nos seus hábitos para reduzir o risco.
Houve também uma mudança na forma como morremos. Há cem mil anos, a maioria das mortes era rápida: um acidente, um ataque, uma queda de penhasco. A vida era interrompida de forma instantânea. Hoje a morte ficou lenta. À medida que passamos a entender melhor o corpo e a ter mais recursos para nos alimentar, a maior parte das mortes passou a vir de uma doença que se desenvolve ao longo de anos, até o corpo não aguentar. E muitas dessas doenças são justamente as de desajuste, cujo impacto e probabilidade você pode reduzir.
O que nos tornou humanos não foi força nem cérebro
Vale entender o que fez o ser humano se destacar, porque isso explica por que o movimento é tão central. No nosso passado mais recente, o nosso maior concorrente foi o neandertal. E o que mudou deles para nós não foi inteligência nem força bruta. Os neandertais tinham o cérebro maior e, em muitos casos, desenvolveram ferramentas até mais elaboradas que as nossas.
O diferencial foi a cultura: a nossa capacidade de transmitir informação, pela voz, pelo exemplo e, depois, pela escrita. Foi a cultura que nos deu mais diversidade de ferramentas, mais estratégias de caça e mais união de grupo. Não vencemos por sermos mais fortes ou mais inteligentes individualmente, e sim por cooperarmos e acumularmos conhecimento. Guarde isso, porque o exercício é parte dessa história.
Para que o corpo humano está adaptado?
A girafa está adaptada para alcançar folhas altas, com o seu pescoço longo. O leão está adaptado para caçar, para transformar qualquer presa em alimento. E o ser humano, que ora sobe em árvore, ora enfrenta o predador, ora atravessa um rio a nado? A resposta é que não temos uma única adaptação.
A nossa ancestralidade foi tão difícil que quase fomos extintos: o Homo sapiens ficou reduzido a poucos milhares de indivíduos. Corríamos pouco, não tínhamos visão noturna, o olfato não era apurado, não sabíamos nadar, éramos fracos. Em vez de uma especialização, fomos nos adaptando a cada ambiente em que a vida nos colocava à prova, sempre apoiados na cooperação e no grupo. Hoje estamos no topo da cadeia alimentar por causa de um passado muito difícil, não de uma vantagem natural.
O salto do bipedismo
O primeiro grande diferencial em relação aos nossos parentes primatas foi o bipedismo. Os macacos até se levantam, mas andam como se estivessem embriagados e cansam rápido, porque a própria anatomia, como o formato do quadril, privilegia ficar sentado e subir, não caminhar. O ser humano desenvolveu o corpo para a vertical, e isso mudou a sua história.
O bipedismo trouxe ganhos imediatos. Na savana, que é uma planície, ficar de pé permitia enxergar muito mais longe. Mas o ganho maior veio de algo menos óbvio, e é o que explica a nossa maior qualidade física.
Por que somos o animal de maior resistência
Quando um animal precisa se deslocar por muito tempo, ele expõe todo o corpo ao sol. Veja um elefante: a coluna inteira fica exposta, e ele não consegue se mover por longos períodos sob esse calor. O ser humano, em pé, só recebe sol forte na cabeça. As costas e o tronco ficam protegidos. Some a isso uma transpiração eficiente, que libera só o suficiente para resfriar a pele, e o resultado é claro: nenhum animal do nosso porte resiste tanto. Nenhum corre vinte, trinta, quarenta quilômetros sem parar.
Foi assim que caçávamos presas muito mais rápidas que nós, como zebras e gnus. Tente imaginar como pegar um cavalo no meio de uma planície: pela velocidade, é impossível. A estratégia era a persistência. O grupo perseguia o animal por horas, e ele corria, parava, corria de novo, até o momento em que precisava parar para beber água ou descansar. Era aí que o grupo, organizado, abatia a presa. A nossa força nunca foi correr mais rápido. Foi durar mais.

A era agrícola e a conta que veio junto
Costumamos olhar para a agricultura como puro progresso, como se tivesse libertado o ser humano da caça. Não foi bem assim, e ela trouxe consequências que pesam até hoje.
A primeira é o tempo. A caça se concentrava em momentos: o grupo se reunia, conseguia o alimento, voltava e tinha um período de descanso e lazer. O cultivo exige presença diária, todo dia, observando e cuidando da plantação. O ser humano passou a trabalhar muito mais para conseguir a mesma quantidade de comida, e perdeu tempo de descanso, de lazer e de cuidado com a família.
A segunda recai sobre as crianças e as mulheres. Entre caçadores-coletores, a criança ficava com a mãe, aprendendo, e só depois acompanhava o grupo. Na agricultura, desde cedo a criança virava mão de obra. Ter muitos filhos passou a ser vantagem, porque era mais gente para cuidar da colheita, e isso pesou sobre as mulheres, que praticamente não paravam de ter filhos.
A terceira é a alimentação. O caçador-coletor variava muito o que comia. Não havia um padrão único: quem vivia nos trópicos tirava cerca de 30% das calorias da carne, e o resto de raízes, legumes e frutas; quem vivia em regiões muito frias se alimentava quase só de carne. Na agricultura, passamos a comer muita quantidade de poucos alimentos, trigo após trigo, algo para o qual o corpo não estava preparado. As primeiras doenças de desajuste apareceram aí. A lição é que a evolução não é uma linha que só sobe. Ela melhora e piora condições ao longo do caminho.
Por que o exercício é “não natural”
Observe os nossos parentes mais próximos. Chimpanzés, bonobos e gorilas passam a maior parte do tempo parados, sentados, comendo. Eles não se exercitam de forma voluntária. Brincam um pouco e param. O natural, para um primata, é poupar energia, não gastá-la à toa.
Com a gente é igual. O exercício é, de fato, antinatural. A diferença é que, na origem, não havia escolha. Se você não se ativasse, não comia. Caçar era uma questão de sobrevivência, sua e de toda a aldeia, e a atividade vinha de brinde, com todos os seus benefícios. A lógica era simples: gastar um pouco de energia para conquistar muito mais. Você corria atrás da zebra, mas voltava com a caça. Hoje essa equação se inverteu: você absorve muita energia sem nenhum esforço, e o corpo não entende isso.
O elo com a Neurociência: o sistema nervoso depende de movimento
Há um detalhe que muda tudo, e é por aqui que a Neurociência entra. O sistema nervoso depende de movimento. Ele se desenvolveu a partir da necessidade de se mover. Isso significa que reduzir muito o movimento prejudica o funcionamento do próprio sistema nervoso.
Para uma escola de Yoga fundamentado na Neurociência, isso é central. De tudo que se conhece, o exercício é o recurso mais acessível e com mais efeito sobre o sistema nervoso. É aqui que se encontram as duas frentes do nosso trabalho: a regulação do sistema nervoso e a longevidade com qualidade de vida. O movimento serve às duas.
O que a ciência mostra: o estudo de Harvard
Um dos estudos mais importantes sobre o tema acompanha ex-alunos de Harvard ao longo de décadas. Os participantes são acompanhados pela vida inteira, registrando hábitos como fumar, beber e se exercitar, o que cria uma base de dados enorme para entender o que de fato interfere na vida no médio e no longo prazo, e o que não faz diferença alguma. O resultado é direto: a atividade física reduz a mortalidade por todas as causas. E o efeito cresce com a idade.
- Entre 25 e 49 anos, quem se mantém ativo tem cerca de 20% menos risco de morte por todas as causas.
- Por volta dos 60 anos, a redução chega a 36%.
- Entre 70 e 84 anos, quem gasta mais de duas mil quilocalorias por semana em atividade física reduz pela metade, 50%, a mortalidade por todas as causas.
Em outras palavras, quanto mais idade, mais relevante o efeito. Para quem tem entre 70 e 84 anos e se mantém ativo, o exercício chega a cortar pela metade o risco de morte por qualquer causa.
A sombra da seleção e a hipótese da avó
Aqui aparece uma pergunta evolutiva incômoda. Por que a seleção natural favoreceria viver mais quem já passou seus genes adiante? Para a seleção, o que importa é a espécie se preservar. Existe até um nome para isso: a sombra da seleção. Quando termina a fase reprodutiva, o indivíduo fica muito mais propenso a morrer, porque, em tese, já cumpriu o seu papel. O estudo de Gurven e Kaplan, de 2007, descreve bem esse efeito.
Então por que o exercício faria a pessoa mais velha viver mais? A hipótese que Lieberman traz é a da avó. Quando passamos a ter mais filhos, criar todos ficou difícil, e a avó entrou como peça fundamental. Uma avó ativa, capaz de ajudar a mãe a cuidar de mais crianças, aumentava a sobrevivência do grupo. Para a seleção natural, ter avós ativas dentro do grupo era uma vantagem. Por isso avós ativas viviam mais: não por acaso, mas porque isso favorecia a espécie. Movimento e longevidade caminham juntos há muito tempo.
Nem sempre mais é melhor: a dose certa
Se ser sedentário prejudica, fazer demais também pode prejudicar, e isso quase nunca é dito. O excesso de exercício, acima de duas a duas horas e meia por dia, todos os dias, reduz o ganho e, em alguns casos, traz prejuízo, inclusive na capacidade de antioxidação, como você vai ver adiante.
No caso das mulheres, o efeito é ainda mais claro. O volume muito alto derruba hormônios ligados à reprodução, como o estrogênio. Não é teoria distante: atletas em pico de treino chegam a passar meses sem menstruar, porque o corpo, exigido ao extremo, simplesmente suspende o ciclo. A faixa que entrega quase todo o benefício é a moderada, algo em torno de 30 a 40 minutos, quatro vezes por semana, já associada a menor probabilidade de câncer e de inflamação no cérebro.
O resumo é claro: sedentário, prejuízo. Atividade moderada, muito benefício. Atividade excessiva, retorno cada vez menor e, em alguns casos, dano.
O que o corpo humano de fato fazia
Os nossos ancestrais eram cerca de quinze vezes mais ativos que nós. Os homens chegavam a se deslocar uma média de vinte quilômetros por dia, todos os dias. As mulheres, de dez a quinze. Correr o equivalente a uma meia maratona diária era rotina, algo para o qual hoje treinamos durante meses.
De todos os exercícios, o único que temos certeza absoluta de que o ser humano sempre fez é correr. Não levantávamos peso, não fazíamos abdominal, não alongávamos como hoje. Isso não torna os outros exercícios inúteis, como você vai ver, mas dá à corrida e à caminhada um lugar especial: são os movimentos que sempre fizemos e que sempre nos fizeram bem. E não precisa exagerar. Correr de quatro a cinco quilômetros, três a quatro vezes por semana, já é um excelente exercício. Vinte quilômetros diários, além de não haver tempo, seriam até prejudiciais.

A dança como preparo
Mas nem sempre era hora de caçar. Como o corpo se mantinha pronto para os momentos de esforço? A teoria de Lieberman é que a resposta está em um hábito que essas tribos mantêm até hoje: a dança. Os rituais em torno da fogueira, com batuque, cantos e movimento, mantinham as pernas fortes e induziam um estado quase de transe, de grande alerta.
Esse estado foi sendo selecionado porque deixava o caçador mais atento e, com isso, ajudava na caça. Ou seja, o exercício melhorava a caça, e a caça selecionava quem se exercitava. Nos períodos de lazer, a dança mantinha o corpo preparado para quando fosse preciso correr atrás das zebras e dos gnus.
O estresse que faz bem
O exercício submete o corpo a um estresse, e isso, longe de ser um defeito, é justamente o ponto. Esse estresse vem de duas formas. A primeira é o gasto de energia, que sempre quisemos poupar, mas que era a moeda de troca da sobrevivência. A segunda é a readaptação de todos os sistemas durante o esforço: o batimento cardíaco, a Respiração, a transpiração, o esforço muscular, tudo se reorganiza.
Um corpo que nunca passa por estresse perde a capacidade de reagir e de se readaptar. Um corpo exposto a um estresse pontual, não crônico, daquele que você faz e depois para, se mantém ativo, vivo e pronto para responder a qualquer situação adversa. É um estresse saudável, e é dele que vêm os ganhos que a pesquisa documenta.
O que o exercício faz por dentro
Os efeitos abaixo estão em pesquisas publicadas, várias em revistas de primeira linha como a JAMA. Veja o que o estresse bem dosado do exercício produz no corpo:
- Antioxidação: a mitocôndria funciona como a bateria da célula. Para produzir o ATP, que é a energia que move as células, ela usa oxigênio e calorias e, nesse processo, gera oxidação, o mesmo princípio da ferrugem que corrói o ferro. O exercício gera oxidação, mas aumenta ainda mais a capacidade de produzir antioxidantes, o que combate o excesso e reduz o envelhecimento celular.
- Mitocôndrias mais eficientes: com o exercício, essas baterias crescem e se otimizam. Passam a produzir energia com menos oxigênio e menos calorias. Quem come mal e é sedentário tem mitocôndrias ineficientes, que precisam de muito mais para entregar muito menos.
- Reparo de DNA: o material genético sofre lesões com o tempo, e o estresse do exercício ajuda a repará-las, assim como acontece com os outros sistemas do corpo.
- Reparo cerebral: o exercício eleva o BDNF, o fator neurotrófico derivado do cérebro, ligado à manutenção e à plasticidade cerebral. Trinta minutos de bicicleta em intensidade alta, cerca de 70% do esforço máximo, já fazem diferença nesse marcador.
- Menos inflamação no corpo como um todo e ativação do sistema imunológico.
Os quatro tipos de exercício para treinar a vida toda
Para cobrir tudo aquilo que o corpo humano foi feito para fazer, vale trabalhar quatro frentes. Os nossos ancestrais faziam de tudo, e reduzir o treino a uma só modalidade limita a sua capacidade corporal.
- Velocidade: ligada à explosão muscular, que é o que mais se perde depois dos 40 ou 50 anos. Não é tanto a massa que se vai, é a capacidade de sair rápido. Estimule o sistema cardiorrespiratório a subir bastante pelo menos uma vez por semana, com treino intervalado de alta intensidade, corrida forte ou mesmo uma saudação ao sol bem acelerada, até sentir o esgotamento. Isso protege o coração, que aprende a acelerar e desacelerar com saúde.
- Força: a capacidade de resistir a um movimento. Vale peso, elástico ou a isometria que se trabalha no Yoga, sustentando uma Postura por tempo. É o que mantém o tônus e a firmeza muscular.
- Resistência: o grande diferencial humano. Uma vez por semana, faça um treino mais longo, de uma hora a uma hora e dez, para sustentar a atividade por mais tempo. A resistência também sustenta o ânimo para o resto.
- Mobilidade articular: muito trabalhada no Yoga. Perder mobilidade é, em si, uma doença de desajuste, porque reduz os movimentos e atrofia o corpo. Quem fica muito tempo sentado comprime os glúteos e a fáscia, que é uma espécie de capa do músculo; essa tensão se propaga para as costas e vira dor. Alongar e ampliar os movimentos libera essa tensão.

O melhor exercício é o que você mantém
Qual é o melhor exercício? Lieberman é contra medicalizar a atividade física, contra prescrever exercício como se fosse remédio. A recomendação dele tem dois pilares.
O primeiro: faça o que você gosta. A atividade em si é o que importa, não um exercício milagroso. Se não gosta de treino intervalado, ache outra forma de acelerar o coração. Se não gosta de treinos longos, caminhe rápido por uma hora. O segundo: varie. Não existe disputa entre musculação, Yoga e corrida; cada um serve para coisas diferentes, e, mais uma vez, os nossos ancestrais faziam de tudo. Corriam, subiam em árvores, faziam força para atravessar um rio. Pense em velocidade, força, resistência e mobilidade, e você cobre tudo aquilo para o qual o corpo foi constituído.
Pense no exercício como no alimentar
O fechamento é o que importa levar: o exercício é uma questão vital, para a vida inteira, não uma fase. Antigamente só comíamos se nos exercitássemos, e a energia entrava com esforço. Hoje você absorve muita energia sem nenhum desgaste, e o corpo estranha: tanta energia chegando sem nenhum movimento. Esse excesso fácil cobra o seu preço.
Se você já come sem precisar caçar, como todo mundo, coloque a atividade física como contrapartida dessas calorias fáceis. E não pare nunca, em nenhuma fase da vida. É como se alimentar: o corpo precisa.
E o jejum?
O tema apareceu nas perguntas e merece cuidado, porque circula muita informação distorcida. Boa parte do que se diz sobre jejum intermitente se apoia no Prêmio Nobel de Yoshinori Ohsumi sobre autofagia, o processo em que a célula consome a si mesma e poderia, em tese, eliminar células prejudiciais. O estudo é verdadeiro e o Nobel também. O problema é que a pesquisa foi feita com fungos. Levar isso direto para a biologia humana é um salto que a própria ciência não permitiria a quem se leva a sério.
Trazendo uma referência mais recente, o livro Outlive, de Peter Attia, reúne as melhores pesquisas sobre o assunto. A conclusão é cautelosa: para a autofagia realmente relevante começar, seria preciso algo entre sete e dez dias de jejum, com perda tão grande de elementos essenciais e de massa muscular que não compensa para a maioria das pessoas. Jejuns longos ainda provocam uma sensação de abstinência, parecida com a de cortar um vício, e a pessoa acaba comendo mais depois, de modo que nem para emagrecer costuma funcionar. Attia só recomenda jejuns longos em um caso específico: quem se alimentou muito mal por muito tempo, com grande excesso calórico, e tem muita gordura a perder.
O caminho mais seguro para a maioria é um pequeno déficit calórico, que entrega os benefícios sem mexer no emocional. Ficar doze horas sem comer pode ajudar a regular a fome, mas isso quase nem se considera jejum. E qualquer decisão sobre alimentação vale combinar com um profissional de nutrição.
Como reconhecer uma boa fonte científica
O exemplo do jejum ensina algo maior: nem toda citação de “estudo” tem o mesmo peso. Saber ler a qualidade de uma fonte é parte do trabalho de quem leva a Neurociência a sério.
Repórteres e divulgadores costumam pegar qualquer pesquisa que confirme a narrativa, sem avaliar o método. Já um autor com formação científica seleciona pesquisas robustas, metanálises, publicadas em revistas sólidas. É a diferença entre se apoiar em um estudo com uma dúzia de pessoas, sem metodologia clara, e em uma metanálise publicada na JAMA. Antes de aceitar uma afirmação de saúde, pergunte: quem fez, com quem, com qual método, e onde foi publicado. Essa desconfiança saudável é o que separa informação de propaganda.
Ciência não é a única forma de validar a realidade
Vale fechar pelo método, porque ele sustenta tudo o que veio antes. Uma escola fundamentada na Neurociência não trata a ciência como única fonte de verdade. O método científico é excelente para relações de causa e efeito, mas não responde a tudo. Perguntas como “o que é o bom” pertencem à filosofia; existe até uma área, a metaética, dedicada a isso, e nenhum experimento de laboratório dá conta dela.
Da mesma forma, reconstruir como vivia o ser humano na origem pede arqueologia, paleontologia e antropologia, não um grupo de controle, afinal não há como montar um experimento com pessoas de duzentos mil anos atrás. Olhar para a nossa ancestralidade é uma forma legítima e poderosa de validar o que faz sentido para o corpo que você habita hoje. Quando surgir uma dúvida sobre um hábito, vale a pergunta: como o seu ancestral agiria nessa situação? Nem tudo que ele fazia era melhor, é claro; ele não escovava os dentes, e ninguém negaria o valor de escovar. Mas o cruzamento dessas fontes ilumina o que a ciência sozinha não alcança.
É exatamente esse cruzamento entre evidência científica e leitura do corpo humano que sustenta a Formação Professor de Yoga com Neurociência da YogIN® Academy. O Yoga propõe, a ciência valida e corrige. Se você quer ensinar Yoga com fundamento de verdade, é esse o caminho.
Deixe um comentário