O filósofo Luiz Felipe Pondé publicou na Folha de S.Paulo um artigo em que chama o mindfulness de “moda boba”. A frase é boa de manchete e rende discussão, mas resolve pouco. Vale a pena tratá-la como pergunta: mindfulness é só uma modinha, uma marca de consumo, ou existe ali uma técnica com objetivo claro e efeito mensurável? Para responder, é preciso voltar à origem da prática, entender no que ela se baseia e o que a Neurociência já conseguiu comprovar. Este texto reúne os pontos centrais da live do Prof. Daniel De Nardi sobre o tema. O vídeo completo está no fim da página.
O que o mindfulness propõe
Mindfulness é um método de meditação recente, mas construído sobre uma técnica muito antiga. Foi sistematizado no fim dos anos 1970 por Jon Kabat-Zinn, cientista e praticante de meditação que criou um protocolo para medir os efeitos da prática: o MBSR, sigla em inglês para “redução de estresse baseada em atenção plena”. A escolha de palavras importa. Kabat-Zinn não apresentou a meditação num contexto religioso. Apresentou como um recurso aplicável a qualquer pessoa que sofra de estresse, independentemente de cultura, religião ou crença.
A ideia de fundo é a neuroplasticidade: a capacidade do cérebro de se moldar a partir da experiência. Se você repete um comportamento, modifica a estrutura do cérebro. Um cérebro que passa muito tempo ansioso aprende a ser ansioso. A meditação entra como treino para o caminho contrário.
O que acontece no cérebro: da panela de pressão ao alívio

Sob estresse, o corpo entende que há ameaça e dispara uma série de comandos para proteger você: músculos tensos, digestão alterada, e principalmente a mente em alerta, acelerada, pensando em mil coisas ao mesmo tempo. Esse estado é útil diante de um perigo real, mas é o oposto do que serve para estudar, trabalhar ou descansar. São dois funcionamentos diferentes do mesmo cérebro.
É como uma panela de pressão que vai acumulando carga. O momento da meditação é a válvula: quando você fecha os olhos e leva a atenção para um único ponto, por alguns minutos a pressão cai. A angústia pode voltar depois, mas cada repetição mostra ao cérebro um caminho de saída. Com recorrência, de preferência todos os dias, ele aprende a operar de outra forma. Na proposta do mindfulness, fala-se em cerca de vinte minutos diários ao longo de três meses para começar a ver mudança consistente. O cérebro funciona como músculo: o que você treina, ele passa a repetir.
A raiz: budismo, impermanência e Yoga

O mindfulness surge para lidar com aquilo que o budismo chama de dukkha: não a dor física, mas o sofrimento psicológico, a angústia de criar imagens e pensamentos que aumentam o mal-estar sem corresponder à realidade. Dukkha também aparece no Yoga Sutra de Patanjali. Yoga e budismo nascem próximos, e os dois têm na origem a mesma proposta de reduzir o sofrimento da mente.
Uma das chaves do budismo é a impermanência. A lenda diz que Buda, antes príncipe protegido de toda dor, passou longas meditações até concluir que tudo na vida é passageiro: a dor, o prazer, a experiência e a própria matéria. Os monges que desenham grandes mandalas de areia e depois as desfazem estão treinando exatamente essa percepção. Quando você sabe que a angústia é passageira, ela tende a pesar menos. Quando carrega a ideia de que vai durar para sempre, o próprio cérebro passa a funcionar nessa direção e tudo piora. A meditação permite observar esse fluxo: você fecha os olhos, concentra a atenção, e percebe que o sofrimento não é um fato fixo, é produzido por uma circunstância que muda.
O budismo organiza essa observação em níveis, e o mindfulness adotou a mesma ordem. Veja como cada etapa conversa com o Yoga:
- Corpo — o escaneamento corporal, a forma mais simples de concentração. No Yoga corresponde a ásana, o trabalho com a Postura.
- Emoções — perceber as sensações e notar que também são impermanentes. No Yoga corresponde ao pranayama, os exercícios de Respiração, já que emoção e Respiração estão fortemente ligadas.
- Mente — observar os pensamentos, venham eles da memória ou de associações. No Yoga corresponde a pratyahara (abstração dos sentidos) e dharana (foco num único ponto).
- Propósito — o dharma, o papel a desempenhar na vida, que fica mais claro com a mente tranquila. Essa etapa existe no budismo, mas fica de fora do protocolo do mindfulness.
As técnicas mudam de nome, não de princípio. No budismo, o Vipassana são cerca de vinte e um dias de observação exclusiva da Respiração, em silêncio (mauna). No Yoga, a meditação como um todo é chamada de samyama. No mindfulness, a prática mais usada também é sobre a Respiração. Em todos, o mecanismo é o mesmo: foco num ponto só, perceber a distração, retomar, e repetir. É esse ciclo que aprimora a atenção e descansa a mente.
Por que o mindfulness virou ciência
Há um motivo para o mindfulness ter ganhado mais espaço, mídia e pesquisa do que a meditação budista que lhe deu origem: ele nasceu dentro do meio acadêmico, com protocolo fixo. Todo mundo medita o mesmo tempo, do mesmo jeito, e isso pode ser replicado e medido em qualquer lugar do mundo. Numa prática de Yoga, que varia muito de um dia para o outro, mensurar resultado é bem mais difícil.
O Yoga tem, de longe, o repertório mais amplo: mais de cem Posturas e dezesseis Respiratórios clássicos com dezenas de variações. O mindfulness escolheu um recorte menor e mais mensurável, focado no que consegue medir, como o tempo de concentração ou a liberação de cortisol, o neurotransmissor usado como medida de estresse. Dukkha é subjetivo e difícil de quantificar; cortisol e tempo de foco, não. O método trocou parte da riqueza de técnicas por padronização, e foi essa padronização que rendeu as comprovações científicas.
O artigo do Pondé, lido por dentro
No artigo, Pondé parte da ideia de que existe uma consciência que nos pesa e que sabe, por conta própria, até onde podemos ir atrás de fama, dinheiro ou sucesso. Em seguida lista uma série de “modas” para lidar com essa consciência, mindfulness incluído, e as opõe a uma referência que considera superior: o estoicismo grego, de Sêneca, com sua proposta de refrear impulsos e desconfiar das promessas do consumo.
Aqui mora o problema do argumento. O estoicismo é uma filosofia: diz o que fazer, refrear o impulso, adiar o prazer, mas não entrega um método de treino. É justamente isso que mindfulness e Yoga oferecem. Quando você senta para meditar, a tendência natural da mente é dispersar. Resistir a esse impulso por alguns minutos é, na prática, treinar o princípio estoico da recompensa adiada.
O freio dos impulsos: o que a meditação treina

Em termos de cérebro, o exercício é concreto. A vontade imediata, o impulso, o desejo de dispersar nascem no sistema límbico, a parte mais interna, instintiva e emocional. O córtex pré-frontal, mais desenvolvido em nós do que em outros animais, é a região capaz de processar essa vontade e dizer “calma, talvez agora não seja o momento”. Meditar é levar a informação do límbico até o pré-frontal antes de agir: você ganha um intervalo maior entre o estímulo e a reação.
É exatamente o que o estoicismo prega, agora como treino prático. E os efeitos aparecem além da almofada de meditação. Há diversos estudos de pessoas que, com a prática recorrente, reduziram comportamentos compulsivos e vícios, justamente porque passaram a inserir esse intervalo entre o impulso e a ação. Quem treina adiar a vontade de dispersar na meditação leva essa mesma capacidade para as decisões do dia a dia.
O próprio Pondé já meditava
Há uma ironia simpática nessa história. O próprio Pondé conta que começou a fazer Yoga “por acidente”, lá por 1981, levado por um amigo. Logo na primeira aula, depois das Posturas, começou a meditar com facilidade, e a professora lhe disse que ele tinha vocação natural para a prática. Ele confirma que até hoje entra em estado meditativo com poucas Respirações.
Ou seja: o crítico do “modismo” conhece o efeito por experiência própria. Isso reforça o ponto, em vez de enfraquecê-lo. A meditação funciona, e Pondé sentiu na pele. O que o artigo faz é separar a filosofia que ele admira da técnica que produz o resultado, quando as duas, na verdade, apontam para o mesmo lugar.
Yoga propõe, a ciência valida
Chamar o mindfulness de moda boba e elevar o estoicismo não se sustenta, porque os dois convergem. A meditação faz, com comprovação científica, aquilo que o estoicismo se propõe a ensinar. E há uma ironia cronológica: a meditação budista e a do Yoga, que dão a base do mindfulness, são anteriores ao estoicismo. A técnica não foi inventada agora; passou por uma ressignificação, mas continua a mesma.
O pano de fundo do debate é a ideia, comum em pensadores que se dizem conservadores, de que o conhecimento valioso ficou no passado e o resto é invenção descartável. A posição da YogIN® Academy é outra: o conhecimento evolui. O Yoga propõe práticas refinadas ao longo de milênios, e a ciência hoje valida o que funciona, corrige o que não se sustenta e explica o porquê. Mindfulness é um bom exemplo desse movimento: uma técnica antiga, recolocada dentro de um protocolo mensurável, que produz efeitos comprovados, da redução de estresse ao controle de impulsos. Não é moda boba. É uma ferramenta com objetivo claro e resultado verificável.
Sobre a tal “consciência onisciente” do início do artigo: na visão da Neurociência, consciência e mente são a mesma coisa, produtos do cérebro funcionando de modos diferentes, ora mais contemplativo, ora mais ativo. Não existe uma sabedoria interna que conheça de antemão o melhor caminho. O que existe é um cérebro que tenta o tempo todo prever o próximo momento com base nas informações que tem. Por isso informação melhor, estudo e educação ajudam a lidar melhor com o dia a dia.
A prática: do corpo aos pensamentos

A live termina com uma meditação guiada, e o convite aqui é o mesmo: tire as notificações, busque algum isolamento e reserve alguns minutos. Sentado, coluna ereta, mãos sobre os joelhos e olhos fechados, comece percebendo o corpo sem precisar olhá-lo, num escaneamento que sobe dos pés até a cabeça. Em seguida, imagine uma tela branca onde os pensamentos são projetados. Você não controla qual pensamento surge, mas pode observá-los aparecer e desaparecer como nuvens no céu, sem elaborar nada, mantendo a tela limpa para o próximo. Esse exercício simples é o treino de observar a própria mente, e cada repetição mostra ao cérebro um caminho a mais para a calma.
Na visão do Yoga com Neurociência, compreender e praticar andam juntos: entender sem praticar rende pouco, praticar sem entender também. Os dois lados é que produzem efeito.
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