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O Mindfulness pode ser perigoso? O que a filosofia e a Neurociência têm a dizer

Yoga com Neurociência | 19 jun 2026 | Daniel De Nardi


O Mindfulness virou quase um consenso. Hospitais, escolas, universidades e empresas recomendam a prática, e há uma quantidade enorme de estudos catalogando seus benefícios: redução da ansiedade, redução do estresse, melhora do sono e do foco. Quando algo é tão bem avaliado, fica difícil imaginar que possa ter um lado negativo. Mas é exatamente aí que vale parar e pensar.

Dentro da biologia existe um princípio simples: tudo aquilo que interfere no corpo e produz efeitos positivos tem, pelo menos em potencial, capacidade de produzir efeitos negativos. Quando alguém diz que algo “só faz bem e não tem como fazer mal”, quase sempre está descrevendo algo que não produz efeito nenhum. Até a água, em quantidade errada, faz mal. Com a meditação não é diferente. Por isso a pergunta desta aula: o Mindfulness pode ser perigoso?

Para investigar, partimos de uma reportagem da BBC News, escrita por Ronald Ávila Cláudio e publicada em 9 de abril de 2024, que entrevista o filósofo britânico Odysseus Stone, especialista em filosofia da mente e pesquisador da Universidade de Copenhague. Stone pratica Mindfulness, reconhece valor na prática, e mesmo assim levanta questionamentos importantes sobre as ideias em que ela se apoia.

De onde vem o Mindfulness

O Mindfulness ganhou espaço porque seu criador, Jon Kabat-Zinn, pegou uma técnica de origem budista, ligada ao Yoga e à meditação, e a secularizou. Secularizar significa tornar a prática laica: retirar o que envolve religião e espiritualidade e manter apenas o que é objetivo e pode ser comprovado.

É exatamente o mesmo processo que propomos na Formação YOGA 3.0, o Yoga fundamentado na Neurociência. Retiramos a camada de mitologia, hinduísmo e crença para que cada pessoa siga seu próprio caminho espiritual onde já se sente à vontade, e pratique a técnica pura: aquela que efetivamente regula o sistema nervoso e produz os efeitos observados. O Yoga propõe, e a Neurociência valida o que tem evidência.

Os três pilares do Mindfulness moderno

Um homem em meditacao com expressao introspectiva, luz mais dramatica e contrastada, ambiente silencioso
Tudo que produz efeito positivo tem potencial de efeito negativo.

Segundo Stone, o Mindfulness contemporâneo se apoia em três ideias:

  • Consciência sem julgamento. Estar presente na experiência sem classificar nada como bom ou ruim, apenas observando.
  • Foco no presente. Atenção exclusiva no momento atual, sem projeção no passado ou no futuro.
  • Descentralização. Reconhecer que pensamentos, emoções e percepções não são fatos concretos da realidade, e sim construções da mente que surgem e passam.

Viver o presente sem o peso do julgamento, por alguns instantes, faz bem ao cérebro e é algo cada vez mais raro hoje. O ponto não é negar a prática. O ponto é entender o que acontece quando ela é levada longe demais.

Reflexão entre filosofia e Neurociência sobre o Mindfulness

Onde o filósofo coloca o dedo

“Todo pensamento é ilusão” é uma ideia frágil. A descentralização pode escorregar para a noção de que nenhum pensamento importa, de que é tudo projeção da mente. Mas nenhum pensamento surge do nada: ele é informação que o cérebro elaborou a partir do seu histórico, e muitas vezes é algo que você precisa guardar ou usar para resolver um problema. O excesso de ruminação é um problema real. Tratar todo pensamento como ilusão é outro. O próprio Mindfulness não te ajuda a distinguir o pensamento ansioso, do qual você deveria se afastar, do pensamento importante, no qual você deveria se concentrar.

Não dá para viver completamente no presente. Toda experiência carrega uma referência implícita ao passado e ao futuro. Como Stone exemplifica, quando você abre a geladeira e pega o leite, precisa de alguma lembrança de como aquilo funciona para agir de forma coerente. O cérebro transita o tempo todo entre passado, presente e futuro, e isso é parte do seu funcionamento saudável. O problema de hoje é o excesso de passado e de futuro. A solução não é apagar os dois e ficar permanentemente no presente.

Atenção não é só um treino individual. A dificuldade de manter o foco não é só falha pessoal. Ela tem uma dimensão estrutural: a economia da atenção, as plataformas digitais e os aparelhos construídos para capturar o seu tempo. O Mindfulness pode ajudar um pouco, mas olhar apenas para o que cada um faz com a própria mente é olhar no lugar errado.

O que a Neurociência acrescenta

A atenção está diretamente ligada à dopamina: o cérebro dispara mais dopamina para aquilo que identifica como mais importante, e é isso que sustenta o foco. Por isso é possível, sim, treinar a atenção, conhecendo o mecanismo que a governa. Você cria sentido para uma atividade, joga a recompensa para o futuro e mantém o foco no presente. É o que acontece quando alguém treina a meditação e consegue ficar cada vez mais tempo concentrado, e é o mesmo princípio que faz a leitura ou outra prática sustentarem a atenção por mais tempo. São redes neurais que se reforçam com o treino.

Sobre o “eu”: a sensação de personalidade é uma construção do cérebro, montada a partir de informações e da sua história, para organizar a vida e dar direção. Concordamos que o eu é construído. O que não compramos é a ideia de que existe um “eu maior” a ser atingido, ou de que o eu cotidiano é pura ilusão a ser dissolvida. Você pode melhorar seus comportamentos e refazer essa construção quando precisa. Isso é diferente de tratar tudo como irreal.

Onde mora o perigo

O risco aparece quando a pessoa passa a acreditar que todo pensamento é ilusório, que nada vale, e que só importa estar no presente. A partir daí, ela pode parar de se preocupar com coisas que são de fato importantes. Sem nenhuma preocupação, fica difícil pagar as contas, cuidar de quem precisa de você por perto e até cuidar da própria saúde, ignorando sinais do corpo que mereciam atenção.

Preocupação em excesso adoece, e existem várias formas de atenuá-la. Mas preocupação nenhuma também cobra seu preço. Determinadas preocupações são verdadeiras e necessárias. Sem elas, a vida vai te levando, e quase sempre com consequências que você não vai gostar. Achar-se “evoluído demais para se preocupar” não é equilíbrio. É um caminho para a estagnação.

O ponto da aula

Mindfulness, meditação, Yoga, leitura: nada que produz efeito é apenas bom. No mínimo, ocupa o seu tempo, que é um valor precioso. Questionar não é desmerecer a prática. É usá-la melhor, na medida e na situação certas.

É assim que trabalhamos o Yoga com Neurociência: sem misticismo e sem promessas mágicas, juntando filosofia, Neurociência e o conhecimento do Yoga para entender o mecanismo por trás de cada técnica. A prática regula, favorece e sustenta estados. Não substitui o seu discernimento sobre o que importa na sua vida.

Assista à aula completa abaixo e deixe sua opinião: em que pontos você acha que o filósofo tem razão?


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