O Yoga é ciência ou pseudociência? Para enfrentar a pergunta de frente, o professor Daniel De Nardi conversou ao vivo com a neurocientista Cláudia Feitosa-Santana, divulgadora científica, autora de “Eu controlo como me sinto”, com pós-doutorado pela Universidade de Chicago, e praticante de Yoga. O resultado foi um raro alinhamento: dá para amar o Yoga e, ao mesmo tempo, separar com honestidade o que se sustenta na evidência do que é só crença. É exatamente o posicionamento da YogIN® Academy: o Yoga propõe as técnicas, a ciência valida o que funciona e corrige o que não se sustenta.
Por que separar ciência de pseudociência

A conversa parte de uma distinção que muita gente confunde. Cientista não é o mesmo que ciência; a indústria farmacêutica não é o mesmo que um medicamento; e um guru não é o mesmo que conhecimento. Você pode (e deve) desconfiar de um cientista isolado e checar o que ele diz, sem por isso jogar fora o corpo da ciência como um todo.
Aí está a grande vantagem da ciência sobre a tradição. Numa tradição, o conhecimento se valida pela autoridade: o guru falou, está dito, e você não tem como questionar. Se você passou a vida inteira seguindo o guru errado, não há mecanismo de correção. Na ciência, a validação é descentralizada: uma afirmação é revisada por pares, replicada e confrontada com dados, de modo que até a maior autoridade da área pode ser corrigida. Como lembram os dois, nascemos com a tendência de escolher e seguir um líder sem questionar; saber disso é o alerta vermelho que nos obriga a checar as fontes.
O que no Yoga é pseudociência (e convém evitar)
Alguns discursos comuns no meio do Yoga não resistem ao escrutínio, e podem fazer mal. A promessa de “extinção total do sofrimento” é uma promessa religiosa: quando não se cumpre, gera frustração e, pior, culpabiliza o praticante (“a culpa é sua, faltou prática”). Aplicada a quem está doente, essa lógica é cruel.
A conversa também desmonta dois atalhos de raciocínio. A falácia naturalista, a ideia de que “se é natural, faz bem”: o álcool é natural e não faz bem. E o apelo ao “milenar”: ter quatro mil anos não é argumento; foram quatro mil anos para apresentar um estudo. Entram ainda na conta a co-criação ao estilo “O Segredo”, a física quântica usada como misticismo e a velha história de “equilibrar o lado esquerdo e o direito do cérebro”, um mito já derrubado. Yoga não cura câncer, e não trata diretamente a dor crônica, ao contrário do que muitos profissionais ainda repetem.
O que no Yoga é ciência (e se sustenta)

Longe de desmerecer a prática, a conversa mostra onde o Yoga tem evidência a seu favor, desde que seja Yoga sério, bem orientado e constante. A prática fortalece a musculatura, em especial a lombar quando a Postura é bem executada, e desenvolve o equilíbrio, ativando músculos que outras atividades não alcançam. Há evidência para melhora da qualidade do sono e, via Cochrane, para o apoio na prevenção de recaídas em depressão, ligado a proteínas neurotróficas.
O ponto mais elogiado é a proposta físico-cognitiva do Yoga. Qualquer atividade física fica melhor quando feita com atenção à Postura, à contração correta dos músculos e à Respiração. E como é mais fácil sustentar a atenção no corpo do que no abstrato, o corpo funciona como a primeira isca para treinar a concentração, que é a base da meditação. Some-se a isso o mais direto de todos: alguns minutos de Respiração ampla melhoram a oxigenação e ajudam a regular o sistema nervoso, sem precisar de nenhuma explicação do além.
O Yoga secular tem mais a ganhar
Um fio histórico atravessa a conversa: Espinosa, no século XVII, separou aquilo que pode ser investigado (a natureza) daquilo que fica para a crença de cada um, abrindo caminho para o método científico. Ciência e espiritualidade podem coexistir, desde que não se misturem. O Yoga seguiu um caminho parecido ao chegar ao Ocidente e se secularizar. Boa parte das Posturas que praticamos hoje, aliás, tem forte influência da ginástica europeia do período colonial, algo bem documentado. Foi justamente ao se desvincular da obrigação religiosa que o Yoga pôde ser absorvido, estudado e levado a mais gente.
Assista à conversa completa
O bate-papo vai do método científico de Espinosa às promessas da pseudociência, e deixa um recado que vale para qualquer área da vida: trabalhe com as informações mais próximas do real, conheça os próprios vieses e mantenha sempre uma forma de autocorreção. Defender a ciência não é jogar fora o Yoga, é praticá-lo com fundamento.
Assista à live completa: Yoga, Ciência ou Pseudociência? com Cláudia Feitosa-Santana
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