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O que é a Filosofia da Mente – uma conversa com João de Fernandes Teixeira

Yoga com Neurociência | 24 jun 2026 | Daniel De Nardi


O que é a mente? A pergunta atravessa toda a história da filosofia e, muito antes disso, já ocupava o Yoga, que enxergava na mente humana uma fonte de sofrimento e de angústia. No Yoga tradicional, de inspiração na filosofia Samkhya, mente e consciência são tratadas como coisas distintas, e a consciência aparece como a parte permanente, quase divina, de cada pessoa. Na YogIN® Academy não partimos dessa visão. Entendemos a mente a partir do que a Neurociência e a ciência vêm descobrindo, e foi exatamente esse o terreno desta conversa.

Para discutir o assunto, Daniel De Nardi recebeu João de Fernandes Teixeira, um dos principais nomes da Filosofia da Mente no Brasil. Ele fez doutorado na Universidade de Essex, estudou nos Estados Unidos sob orientação de Daniel Dennett, um dos maiores filósofos contemporâneos, e é autor de mais de uma dezena de livros sobre mente, consciência e inteligência artificial. O que se segue é uma síntese dos temas debatidos, organizada assunto por assunto.

O que é a Filosofia da Mente

Perfil humano dissolvido em um cérebro luminoso, ilustrando a Filosofia da Mente
A Filosofia da Mente investiga a relação entre mente e cérebro, mas vai buscar respostas também na ciência.

A Filosofia da Mente trata de um problema filosófico tradicional, que atravessa todo o pensamento desde Descartes: a relação entre mente e corpo, ou, na linguagem de hoje, entre mente e cérebro. A grande diferença é que ela não se limita à especulação. Em vez de discutir o que é a mente apenas no campo das ideias, a Filosofia da Mente vai atrás de respostas também na ciência.

Por isso ela caminha lado a lado com duas disciplinas decisivas do nosso tempo: a Neurociência e a inteligência artificial. No Brasil, é uma área ainda em formação, mas que cresce com força, entrando nos cursos de filosofia e na conversa pública sobre tecnologia.

Neurociência e inteligência artificial: as duas frentes que tentam explicar a mente

A Neurociência ganhou destaque a partir dos anos 1990, impulsionada por uma descoberta tecnológica: a neuroimagem. Com a ressonância magnética funcional passou a ser possível mapear o cérebro e localizar onde acontecem certos pensamentos e emoções, identificando as regiões para onde flui mais oxigênio e glicose enquanto a pessoa faz uma conta ou executa uma tarefa.

A inteligência artificial vem da outra frente. Ela não nasceu como a conhecemos hoje. Começou nos anos 1950, como um interesse de pesquisa que tentava criar modelos computacionais do funcionamento mental. Passou por avanços e por recuos, os chamados invernos da inteligência artificial, até resolver problemas que hoje parecem triviais, como jogar xadrez ou traduzir idiomas com boa qualidade.

As duas frentes entregaram muito, mas ambas deixaram uma conta em aberto. Tanto a Neurociência quanto a inteligência artificial ainda nos devem uma explicação para a consciência. Ela segue sendo o grande enigma.

A consciência, segundo Damásio: emoção, dor e marcadores somáticos

Rosto humano metade orgânico, metade rede digital, representando razão e emoção
Para Damásio, não existe inteligência humana dissociada das emoções.

Uma das propostas mais conhecidas vem de António Damásio. Para ele, a consciência pode ter surgido a partir da dor: da necessidade de fugir dela nasce um mecanismo que vai se sofisticando até se voltar para coisas distantes e abstratas, sustentado pela nossa capacidade de planejar e antecipar passos.

Damásio chama a atenção para algo decisivo: a inteligência não pode ser separada das emoções. Criar um ser inteligente sem emoções seria quase criar um psicopata. As emoções regulam até onde vai um curso de ação. É o que ele chama de marcadores somáticos, uma espécie de restrição que a própria mente impõe a si mesma para se proteger. O medo é o exemplo mais claro: ele nos protege de ações arriscadas. Sem medo, sem emoções, diz Damásio, não se vê como seria possível haver consciência.

Senciência: o divisor de águas entre a mente humana e a máquina

Mão humana e mão robótica diante de um tabuleiro de xadrez
Deep Blue venceu Kasparov, mas não sentiu nenhuma satisfação com isso.

Há uma diferença profunda entre inteligência artificial e inteligência humana. Quando o Deep Blue derrotou o campeão de xadrez Garry Kasparov nos anos 1990, a máquina não sentiu nenhum júbilo. Quando o AlphaGo venceu o melhor jogador de Go do mundo, também não houve nenhuma satisfação. Isso não faz parte do que pode ser programado.

O grande complicador para construir uma máquina consciente é que as máquinas não têm senciência. Elas não reagem à dor, não sentem alegria, não experimentam êxito. E a senciência é uma das grandes balizas da nossa vida: orientamos boa parte do que fazemos para fugir das dores físicas e, com recursos mais sofisticados, para lidar com as dores psíquicas. Sem senciência, argumenta João, não se vê como a consciência poderia se desenvolver.

O quarto chinês de Searle: por que a máquina não entende o que diz

Silhueta de uma pessoa manipulando símbolos de luz dentro de uma sala fechada
O argumento do quarto chinês: produzir respostas corretas não é o mesmo que compreender.

John Searle propôs um experimento mental que ficou conhecido como o argumento do quarto chinês. Imagine um tradutor capaz de converter qualquer texto para o chinês de forma perfeita. Mesmo assim, esse sistema não sabe o que está fazendo. Os símbolos que ele produz não têm referência nenhuma a coisas do mundo. É o que Searle chama de falta de intencionalidade. Desde então, nenhuma máquina superou esse problema.

Quando você conversa com um sistema de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT ou o Claude, é fortemente tentado a atribuir consciência e significado às respostas. Mas tudo ali é estatística. A máquina continua gerando símbolos cegos, sem saber o que diz. João lembra o caso de Blake Lemoine, o engenheiro do Google que se convenceu de estar conversando com um ser consciente. É o que ele resume como a diferença entre o encantamento e a verdadeira compreensão. A inteligência artificial nos encanta, e isso não significa que ela entenda o que está dizendo.

Cérebro preditivo, mas não só isso: a capacidade de planejar

O cérebro humano também funciona de forma preditiva, calculando o que vem em seguida, assim como a inteligência artificial. Quando o smartphone sugere a próxima palavra enquanto você digita, está fazendo uma miniatura do que a inteligência artificial generativa faz em larga escala. Mas o cérebro preditivo não é a totalidade do cérebro.

Existe algo que João considera fundamental para a consciência e que a máquina não tem: a capacidade de planejar e de improvisar. Diante de um rio, um ser humano percebe que pode juntar duas peças, formar uma ponte e atravessar. A inteligência artificial tem um estoque imenso de situações possíveis, mas não cria, naquele instante, a improvisação necessária para resolver um problema novo. É por isso, aliás, que ele se afasta do behaviorismo: a corrente comportamental não consegue explicar essa capacidade de planejar.

O zumbi de Chalmers e o problema difícil da consciência

Em 1996, David Chalmers escreveu A Mente Consciente. Sua tese é que podemos duplicar todas as atividades mentais humanas sem que isso seja suficiente para gerar experiência consciente. A experiência é algo suplementar, e a sua natureza permanece inexplicada.

Para tornar o ponto evidente, Chalmers propõe a figura do zumbi: uma criatura sem nenhum vestígio de consciência, com quem você poderia conversar sem jamais saber se ela é ou não consciente. É aqui que aparece o paradoxo: nós nos dizemos seres conscientes sem ter a menor ideia do que a consciência seja, e ainda assim somos capazes de reconhecer a consciência nos outros, algo que uma máquina provavelmente não conseguiria fazer. Esse é o problema difícil da consciência, e ele esbarra também na subjetividade, aquilo que os filósofos chamam de qualia: você pode descobrir o substrato químico do amor, mas isso não explica por que se ama esta pessoa e não outra.

A introspecção é cega para o próprio cérebro

Mesmo a ideia de uma máquina que olha para si mesma esbarra num limite que conhecemos bem: a nossa introspecção é imprecisa. Quando olhamos para dentro, não temos acesso aos mecanismos neurais que estão produzindo os nossos estados mentais.

João usa um exemplo concreto. Como você detectaria, subjetivamente, que está tendo um AVC? Não tem como. São os sinais externos que denunciam, observados por outras pessoas. O evento acontece no cérebro, mas não faz parte do conteúdo da mente. A distância entre o que o cérebro faz e o que a mente percebe continua sendo um grande mistério.

Software, hardware e a mente que modifica o cérebro

Por muito tempo, o funcionalismo descreveu a mente como o software do cérebro, inspirado na ciência da computação, em que um mesmo programa roda em diferentes máquinas. É uma teoria elegante, mas tem uma lacuna: você pode imitar as funções da mente sem incutir nessa imitação o sentimento da subjetividade, aquilo que Damásio chama de o sentimento do que acontece.

Hoje a separação rígida entre software e hardware perde força. As nossas percepções e experiências alteram o cérebro e vão constituindo a individualidade, que é o conjunto de tudo que você viveu, modificando as redes neurais dentro da sua cabeça. Pensar é modificar o cérebro. Mente e cérebro não são duas camadas independentes.

Consciência, sonambulismo e a raiz da moral

O filósofo William James, um dos fundadores da Psicologia, dizia que a consciência é como a Respiração: assim como prendemos o ar por um tempo, somos capazes de suspender a consciência. O sonâmbulo faz isso, e também o ator que decora um script e o deixa ocupar o lugar da própria consciência por horas no palco.

Esse ponto leva a uma consequência importante. A moral e a ética só são possíveis a partir de seres conscientes. Por isso, mesmo que a ciência avance muito, as questões de valores não se resolvem apenas com estatística e dados objetivos. Elas exigem subjetividade, debate e acordo entre pessoas. Não é algo que se delega a uma máquina.

A corrida pela inteligência artificial geral e a ética que não se implementa

Existe hoje uma vasta literatura sobre a ética da inteligência artificial, mas João é cético quanto a implementá-la de fato. Você pode imaginar como as máquinas deveriam se comportar, sem que haja um modo real de inscrever uma ética dentro delas. E o cenário é de risco, porque vivemos algo parecido com a corrida armamentista, agora em busca da inteligência artificial geral, um algoritmo capaz de gerar outros algoritmos sob demanda.

Há um fator de poder no centro disso. Treinar uma rede neural custa milhões de dólares, exige grandes equipes e enormes data centers, o que concentra a disputa em poucos players com mais capacidade de investir. Alternativas para reduzir custo já aparecem, como os dados sintéticos usados por modelos mais recentes, ainda que não atinjam o mesmo grau de sofisticação. E há um capítulo sombrio nessa história: nos primeiros modelos, populações pobres foram contratadas por cerca de um dólar por dia para rotular imagens manualmente.

Inteligência artificial na medicina: avanço real e dilemas de vida e morte

Nem tudo é alerta. Na medicina, a inteligência artificial está fazendo a área avançar décadas em poucos meses. Programas escaneiam tomografias e detectam nódulos invisíveis a olho nu, adiantam laudos, encurtam filas e identificam cedo problemas que poderiam se tornar perigosos. A cirurgia robótica permite intervenções com cortes mínimos e recuperação muito mais rápida.

Mas há o lado difícil. Existem sistemas que administram unidades de terapia intensiva a partir de dados estatísticos e acabam, na prática, definindo prioridades de quem tem mais chance de sobreviver. João aproxima esse dilema de uma decisão histórica: Alan Turing, ao decifrar o código alemão na Segunda Guerra, precisou escolher quais ataques não impedir para não revelar que o código havia sido quebrado. São decisões dificílimas, em que o cálculo encontra o peso humano da escolha.

Transumanismo, chips no cérebro e o próximo passo do homo sapiens

Perfil de pessoa com circuito neural sutil integrado à têmpora
Chips no cérebro levantam uma pergunta inevitável: quem decide o conteúdo deles?

O ambiente cognitivo está mudando rápido, e João levanta uma hipótese provocativa: talvez o próximo passo do homo sapiens passe por um modo diferente de processar informação, mais adaptado ao volume de conhecimento que produzimos e que já não conseguimos assimilar.

É aí que entra o transumanismo, na sua versão popular de chips no cérebro para ampliar a cognição. A tecnologia já é estudada para conter crises epilépticas, e pode um dia ajudar na educação, poupando cada geração de recomeçar do zero. Mas ela abre perguntas que não são técnicas, e sim filosóficas. Quem decide o conteúdo desses chips? O Estado? E como você vivenciaria um conhecimento que não passou por nenhuma experiência sua, que chega quase como um déjà-vu? O que parece um ganho de eficiência mexe no centro daquilo que nos torna humanos.

Por que estudar filosofia

No fim da conversa, João deixa um argumento direto sobre a importância da filosofia. Estudá-la amplia a compreensão e desenvolve o pensamento crítico, a capacidade de analisar o mundo de uma maneira diferente. Hoje a tecnologia nos atropela em parte porque a filosofia ficou para trás, em nome de uma utilidade imediata. A filosofia não vai facilitar a sua ida ao mercado, mas dá uma visão de mundo e a capacidade de discutir a própria tecnologia.

A filosofia não resolve problemas: ela propõe soluções possíveis, e cabe às pessoas discutir as mais plausíveis. Serve para abordar questões que não se resolvem em laboratório, as que envolvem valores e a nossa autoconcepção como seres humanos. Não por acaso, Heidegger dizia, em 1930, que o nosso modo de estar no mundo é a angústia. Hoje chamamos isso de ansiedade, empurrada pelo aceleracionismo do fazer sem parar. Diante disso, vale a pena parar para pensar nas consequências, e esse gesto de pausa e exame é também o ponto onde o Yoga, conduzido com base na Neurociência, encontra a filosofia.

Assista à conversa completa

Esta foi uma síntese dos principais temas debatidos. A conversa com João de Fernandes Teixeira é longa e cheia de nuances que vale a pena acompanhar na íntegra, no vídeo acima. Se você se interessa por entender a mente a partir da ciência, e não do misticismo, é esse o caminho que seguimos no Yoga com Neurociência.


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