Mark Rothko é considerado um dos maiores nomes da arte abstrata de toda a história. Mas, antes de olhar para a obra dele e entender por que aqueles retângulos de cor valem tanto, vale a pena dar um passo atrás e entender de onde veio a arte abstrata. E essa história começa lá na virada do século XIX para o XX. Para entender a arte abstrata, é preciso voltar aos impressionistas Estamos falando do final de 1890 e início de 1900. Nesse momento, a fotografia começa a ficar cada vez mais desenvolvida. E, à medida que a máquina fotográfica evoluía, os artistas olhavam para si mesmos e se perguntavam: \"Bom, se a imagem das coisas já está sendo registrada por uma máquina, o que mais a gente tem para fazer?\" A partir daí, eles começaram a criar imagens que uma câmera não conseguia captar. Coisas como a influência da luz sobre as coisas — que não fica exatamente igual numa fotografia. A realidade tem muitas nuances que uma imagem fotográfica não consegue expressar do jeito que elas verdadeiramente são. Foi assim que eles começaram a pintar aqueles quadros aparentemente um pouco distorcidos: para representar a força e a importância da luz nas imagens e, ao mesmo tempo, criar mais dramaticidade — em vez de deixar tudo estático e realista como uma fotografia. Nascia o impressionismo, um passo novo na arte. A partir dali, a arte não precisava mais expressar exatamente aquilo que estava sendo fotografado: ela podia trazer algo a mais — o sentimento, a expressão do próprio artista. Anos 1950: a força do movimento abstrato Isso foi evoluindo com o tempo. E foi mais ou menos na década de 1950 que o movimento abstrato ganhou força de verdade. Nesse momento, temos Kandinsky levando esse movimento adiante na Rússia, Jackson Pollock fazendo o mesmo nos Estados Unidos, dentro do expressionismo, e Mark Rothko trabalhando também nos Estados Unidos, ao lado de Pollock. Pollock x Rothko: dois caminhos para a mesma emoção A diferença entre os dois é importante. Pollock expressava na tela todo aquele sentimento que a arte vinha trazendo desde os impressionistas: ele jogava a tinta, criava gotejamentos, derramava as suas emoções diretamente sobre a obra. Já Rothko pintava simplesmente formas retangulares. Ele pintava quadrados. E aí vem a pergunta inevitável: o que um quadrado tem a dizer? Por que isso pode ser considerado arte? A grande sacada de Rothko A genialidade de Rothko foi perceber uma coisa: independentemente da imagem que você está vendo, quem cria o sentido é a pessoa que observa. Então o que ele fez foi colocar diante de você uma imagem que libertasse o espectador — para que cada um sentisse e interpretasse aquilo do jeito que quisesse. Não era a expressão do artista, como acontecia em Pollock, que gotejava a tinta com raiva, com ódio, com a sua própria emoção. Rothko tentava justamente deixar a coisa simples, para que você olhasse aquela simplicidade e tivesse as suas próprias percepções e os seus próprios sentimentos. Ele inaugurou um tipo de arte construída junto com o espectador. E foi exatamente isso que fez dele um dos artistas mais valiosos do mundo. Então, se você ainda não conhece, vale muito a pena dar uma olhada nas obras de Mark Rothko e entender um pouquinho mais sobre o que é — de verdade — a arte abstrata.
Eu acompanho a obra do Paolo Sorrentino há tempos. Vi A Grande Beleza, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e desde então sempre gostei do trabalho dele — mesmo sabendo que é um cinema diferente do que a gente está acostumado. Ele tem um ritmo próprio, mais lento, mais contemplativo. Mas é justamente aí que mora o que mais me atrai no que ele faz. Por que eu gosto do cinema do Sorrentino A primeira coisa é o ambiente. Os filmes do Sorrentino são sempre muito bonitos — ele cuida demais da fotografia, da composição de cada cena. Mas, para além da beleza, existe uma ideia que se repete na obra dele e que eu acho fascinante: ele faz relações constantes com temas defendidos pela própria Igreja — o transcendente, o milagre, a eternidade, o perdão — só que para mostrar que tudo aquilo que a gente associa ao sagrado também acontece nas coisas do cotidiano. De outras formas, mas na mesma essência. Em A Mão de Deus, por exemplo, ele conta a chegada de Maradona ao Napoli como se fosse um milagre: do nada, o maior jogador do mundo parou ali, e a cidade vive aquilo como algo quase divino. Em Juventude, ele trata da eternidade — outra questão típica da religião, o que acontece para além — através de pessoas muito ricas que se internam numa clínica na Suíça em busca de longevidade. Em Loro, sobre Berlusconi, ele volta à questão do poder. Os personagens do Sorrentino quase sempre são pessoas muito bem-sucedidas e, ao mesmo tempo, profundamente blasés — sem grande motivação para viver. A Graça: o perdão que sai da Igreja e entra no Estado Toni Servillo como o presidente Mariano De Santis em A Graça. Em A Graça, o protagonista é um presidente — mais uma figura de poder, e mais um homem blasé, sem uma motivação clara na vida. E o título já carrega o jogo que o Sorrentino propõe: “a graça” é algo transcendente, ligado ao perdão, a algo divino. Só que aqui essa graça é uma decisão que ele precisa tomar — conceder, ou não, o perdão a duas pessoas que cometeram crimes. O filme inteiro passa por esse conflito: dar a graça ou não dar. E o ponto que eu acho mais bonito é exatamente esse deslocamento: o perdão, que em princípio seria uma coisa de Deus, da Igreja, aparece aqui na figura do Estado, do presidente que concede clemência a alguém. De novo aquela ideia — o que a gente costuma ver na religião também está no nosso dia a dia, só que sob outra forma. E tem um detalhe importante: o personagem não é necessariamente um homem religioso. Ele até conversa com o Papa, transita por esse universo — mas, na hora de decidir, ele decide com base no que é a lei do Estado, e não no que ele pensaria como questão transcendental. A relação com a religião existe, mas não como fé: como moldura, como linguagem para falar de algo que, no fundo, é muito humano e muito terreno. Vale a pena assistir Para mim, vale muito. É mais um Sorrentino que vale a pena conhecer — com aquela fotografia caprichada, o ritmo prprio dele e essa leitura do transcendente dentro do cotidiano que atravessa toda a obra. A Graça está disponível no Prime Video. Se você gosta de um cinema que pede atenção e recompensa quem assiste com calma, recomendo.