Existe uma imagem que parece contradizer tudo o que a Neurociência diz sobre o cérebro humano: a de um monge sentado, imóvel, enquanto o próprio corpo arde em chamas. É uma das fotografias mais conhecidas do século XX, e ela levanta uma pergunta incômoda. Se o cérebro existe para sustentar a nossa sobrevivência, como é que ele consegue produzir exatamente o oposto, a ponto de uma pessoa atear fogo no próprio corpo e permanecer ali, sem reagir?
Essa pergunta é o ponto de partida para entender como a motivação humana funciona. E entender isso é útil em dois sentidos: para você gerir melhor a sua própria motivação e para conduzir os seus alunos quando precisar estimular ou dar um incentivo na hora certa. A seguir, a explicação que Daniel De Nardi deu sobre o tema, organizada ponto a ponto.
O cérebro decide em dois fluxos: de baixo para cima e de cima para baixo

Quando o cérebro toma uma decisão, ele faz dois trabalhos ao mesmo tempo. Um deles parte da base para cima, o chamado fluxo de baixo para cima. Ele está ligado aos sentidos: quando você sente fogo, o corpo quer sair daquela situação imediatamente, sem pedir licença. É a resposta crua, automática, que existe para proteger a vida.
O outro trabalho vem no sentido inverso, de cima para baixo. É quando você cria uma ideia e essa ideia passa a influenciar os próprios sentidos. Os dois fluxos vivem em disputa dentro do cérebro o tempo inteiro, e dependendo da situação um deles prepondera. Aquilo que você quer fazer entra em conflito com aquilo que os seus sentidos estão dizendo.
O monge conseguiu permanecer imóvel porque o estímulo mental dele era tão forte que venceu todos os sentidos, inclusive a própria preservação da vida. A ideia que ele sustentava preponderou sobre o sinal de baixo para cima. É um caso extremo, mas mostra do que esse mecanismo é capaz quando a ideia se torna mais forte do que o reflexo de sobrevivência.
Por que sentir prazer não é sinônimo de fazer bem

Daniel Lieberman, professor de Harvard e autor de A História do Corpo Humano, descreve um problema que toca diretamente quem trabalha com motivação. Toda a nossa estrutura biológica foi construída dentro de um ambiente, mas de uns tempos para cá viemos modificando esse ambiente em uma velocidade que a biologia não acompanha. O resultado são desajustes no nosso funcionamento.
Um desses desajustes é uma ideia que carregamos por dentro: a de que aquilo que dá prazer faz bem e aquilo que dá dor ou incômodo faz mal. Isso fazia sentido quando vivíamos integrados à natureza, por uma questão puramente biológica. À medida que passamos a criar ideias e mecanismos de relacionamento, essa relação se embaralhou. Sentir-se bem deixou de ser garantia de estar fazendo bem ao corpo, e sentir incômodo deixou de significar que algo está fazendo mal.
O exemplo que Daniel usa é simples. Ele adora milkshake e tomaria litros se pudesse, sentindo-se muito bem durante. Só que isso não faz bem ao corpo. E quando ele faz as Posturas, sente o mesmo desconforto que qualquer aluno sente, com a mesma vontade de desfazer a posição na hora. Está todo mundo no mesmo barco. A diferença é que quem entende que aquele esforço é necessário consegue sustentá-lo por mais tempo. Boa parte da nossa felicidade depende de atravessar alguns desconfortos e de adiar determinados prazeres.
A liberdade, segundo Kant, é poder não fazer
Esse ponto se encontra com uma ideia do filósofo Immanuel Kant, que aparece na parte de filosofia do Yoga. Costumamos pensar a liberdade como “posso fazer o que eu quiser, faço tudo”. Kant inverte isso. Para ele, a liberdade está em conseguir não fazer. É quando você sustenta a sua própria vontade diante do impulso que realmente se torna livre.
Numa Postura difícil, você poderia dizer que a liberdade total seria simplesmente desfazer e parar. Mas a liberdade, nesse sentido, é conseguir sustentar a posição. É o momento em que a sua força de vontade, o fluxo de cima para baixo, se mostra mais forte do que o sinal dos sentidos que pede para você sair dali. Não é o extremo do monge, mas é o mesmo princípio operando em escala humana e cotidiana.
Onde isso aparece na prática: desconforto, isometria e força

É essa ideia que você leva para os seus alunos. Para modificar o corpo, é preciso atravessar determinados desconfortos. Para construir músculo, dar mais tônus ou ganhar resistência, o desconforto faz parte do caminho. Não existe transformação física sem essa travessia.
Uma das formas de trabalhar o músculo é a isometria, o momento em que você sustenta o músculo em uma determinada posição. Mesmo parado por fora, por dentro o músculo faz contração e relaxamento diversas vezes, de forma involuntária, sem que você tenha controle sobre isso. É como uma musculação muito rápida acontecendo ali dentro, desenvolvendo força e resistência. Não é a única forma de ganhar força, mas é bastante eficiente, e é assim que as Posturas do Yoga trabalham quando o foco está na força.
O ponto que une tudo é a compreensão. Internamente, os músculos vão dar uma queimada, e isso é esperado. Quem entende que nem tudo que dá prazer faz bem, e que nem todo desconforto faz mal, sustenta o esforço por mais tempo e colhe o resultado. Você não vai chegar ao extremo da imagem que abre este texto, mas opera o mesmo mecanismo de cérebro toda vez que decide ficar mais um instante na Postura.
No vídeo acima, Daniel desenvolve cada um desses pontos com calma e mostra como aplicá-los na condução de uma aula. Vale assistir na íntegra. Esse é o tipo de leitura que está no centro da formação em Yoga com Neurociência da YogIN® Academy: o Yoga propõe a prática, e a Neurociência valida, corrige e explica por que ela funciona.
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