No Capítulo 2 eu falei de um cérebro faminto pelo mundo: você não nasce pronto, e é o que chega de fora que termina de te montar. Agora vem a pergunta que nasce direto dali. Se o cérebro se molda ao que recebe, o que exatamente fica escrito lá dentro? A resposta dá nome ao capítulo 3: o interior espelha o exterior. O que você tem dentro do cérebro é o retrato daquilo que você viveu fora.

O braço que continuava lá
Eagleman abre com a história do almirante Nelson, o mesmo que derrotou a frota de Napoleão em Trafalgar. Em combate, Nelson perdeu o braço direito. Só que ele continuou sentindo o braço, mesmo sem ele estar mais ali. Chegou a dizer que aquilo era uma prova de que existe vida além deste mundo — que o braço estaria nessa outra vida.
A explicação real é outra, e é o mesmo fenômeno que existe até hoje: o membro-fantasma. O cérebro desenha um mapa dos limites do nosso corpo. Esse limite não está na carne — quem traça é o cérebro. Quando a pessoa perde uma parte do corpo, o mapa não se atualiza na mesma hora. O cérebro continua “esperando” o braço, e por isso a pessoa continua sentindo o que já não está mais lá.
Nelson não foi um caso isolado, e é isso que tira a história do terreno da curiosidade. Décadas depois, o médico Silas Weir Mitchell documentaria o mesmo relato, repetido à exaustão, em soldados amputados na Guerra Civil americana: o membro tinha ido embora, e a sensação dele tinha ficado. Um homem pode estar enganado sobre o próprio corpo. Centenas deles, dizendo a mesma coisa, são um dado.
Repare no que isso tem de desconcertante. O braço não estava lá, e a sensação estava. Ou seja: o que você sente do seu corpo não vem exatamente do corpo. Vem do mapa que o cérebro faz dele.
O mapa do corpo dentro da cabeça
E esse mapa não é força de expressão. Ele foi literalmente desenhado. Em 1951, o neurocirurgião Wilder Penfield estimulou com um eletrodo a superfície do cérebro de pacientes acordados durante cirurgias e foi perguntando o que eles sentiam. Toca aqui, o paciente sente a mão. Toca ali, sente o lábio. Ponto a ponto, Penfield foi levantando a planta do corpo humano estirada sobre o córtex — a figura que ficou conhecida como homúnculo.
O homúnculo é deformado, e é justamente a deformação que ensina. As mãos e os lábios são enormes. O tronco e as pernas, pequenos. O mapa não respeita o tamanho real das partes do corpo: ele respeita o quanto cada parte é usada e o quanto ela precisa de detalhe. A sua mão ocupa mais cérebro do que as suas costas porque é ela que faz perguntas ao mundo o dia inteiro.
O córtex é uma disputa por território

A imagem que Eagleman repete o livro inteiro é esta: o córtex é uma disputa por território. As áreas do cérebro competem por espaço, como uma briga por terra. Aquilo que você usa muito conquista território; aquilo que você não usa, perde. Os mapas do corpo dentro do cérebro são moldados pelo uso.
Os exemplos são claros. Violinistas têm uma representação ampliada dos dedos da mão esquerda, que é a mão que trabalha o tempo todo nas cordas. Leitores de braile têm a ponta do dedo superdimensionada no córtex, e por isso são muito mais sensíveis ao toque ali. O corpo que você treina vai ficando maior no mapa do cérebro, na medida da necessidade.
E aqui vale juntar as duas pontas. O mapa do violinista não é o mapa com que ele nasceu, e o mapa de Nelson mudou depois de adulto, no meio de uma guerra. Não é um desenho que veio de fábrica e ficou. É um desenho em disputa permanente.
Quando um sentido cede espaço a outro
Esse mesmo princípio aparece numa forma ainda mais impressionante, que Eagleman chama de plasticidade cross-modal: um sentido tomando o espaço de outro. Em pessoas cegas, o córtex visual não fica ocioso. Ele é reaproveitado, principalmente para a audição. O território que seria da visão é recolonizado pelos outros sentidos.
É isso que ajuda a explicar a vantagem que muitas pessoas cegas têm para ouvir e para a música — não por acaso, há tantos músicos cegos. O cérebro está dedicando à audição muito mais espaço do que dedicaria normalmente, porque a visão não está ali ocupando esse território. O cérebro redistribui a terra para o que está sendo usado.
Ver pelo eco
O caso que mais chama atenção no capítulo é o de um rapaz que enxergava e perdeu a visão ainda criança. Com o tempo, ele desenvolveu uma forma de “ver” pelo eco: produzia um som, ouvia esse som voltar e, a partir do retorno, conseguia mapear o ambiente ao redor e se deslocar. É uma espécie de ecolocalização humana. Eagleman observa o quanto isso é notável. O cérebro não só reaproveita o espaço da visão perdida como constrói, do zero, um jeito novo de captar o mundo e montar um mapa mental do espaço físico para depois se mover dentro dele.
O que isso tem a ver com Yoga
Aqui a conversa deixa de ser sobre livro e passa a ser sobre a sua prática.
Se o mapa do corpo dentro do cérebro é desenhado pelo uso, então a percepção que você tem de si mesmo não é um traço fixo da sua personalidade. É território — e território se conquista. Quando alguém diz “eu não sinto minha respiração” ou “não faço ideia de onde está minha tensão”, essa pessoa não está falhando em nada. Ela está descrevendo um mapa pouco desenvolvido numa região que ela nunca teve motivo para usar. Isso muda com uso, como mudou para o violinista e para o leitor de braile.
É esse o trabalho de uma prática bem conduzida. Ao treinar a Respiração de forma recorrente e a atenção ao corpo por dentro, você está fazendo o serviço lento e nada glamouroso de alargar um território: o da percepção de si. Você não está buscando nada que já não seja seu. Está usando a única moeda que o córtex aceita, que é a repetição.
E note que nada disso é privilégio de infância. Nelson era um homem feito. O violinista adulto que estuda todo dia segue redesenhando a própria mão no córtex. Não existe “tarde demais” aqui — existe uso, ou a falta dele. O cérebro dá espaço para aquilo que aparece todo dia, e não para aquilo que apareceu com muita força uma vez só. É por isso que a constância vale mais do que a intensidade: não é uma questão de virtude, é o modo como o território é repartido.
Se você quer entender, com base em fisiologia e Neurociência, como conduzir uma prática que regula o sistema nervoso de verdade, é exatamente isso que ensinamos na YogIN® Academy.
No Capítulo 4 eu sigo com a releitura. Acompanhe o blog para não perder.
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