Eagleman abre esse capítulo com uma imagem que parece só brincadeira de ficção. Ele lembra do vilão dos quadrinhos que tinha braços mecânicos saindo das costas, o Doutor Octopus, aquele que coordenava um braço, depois outro, depois outro, como se fossem parte dele desde sempre. Na hora a gente lê aquilo como fantasia. Mas a pergunta que ele coloca é séria, e é essa: será que o cérebro conseguiria mesmo controlar braços a mais, membros que a gente não nasceu tendo? A resposta dele, ao longo do capítulo, é um sim desconfortável de tão direto.

O DNA aperta, o cérebro afrouxa
O ponto de partida é uma comparação entre dois sistemas que constroem a gente. De um lado o DNA, de outro o cérebro.
O DNA é conservador. Ele restringe muito o tipo de modificação que pode acontecer no corpo. Não é impossível mudar, existem casos raros de gente que nasce com o começo de um rabo, com um dedo a mais, com variações no plano do corpo, mas isso é exceção, acontece de vez em quando e leva gerações para se fixar. Mudar corpo pela via genética é caro e lento.
O cérebro joga o jogo oposto. Ele se modifica o tempo inteiro, todo dia, dentro de uma vida só. É essa a tese que a série vem construindo desde o primeiro capítulo, o cérebro não vem pronto, ele se reconfigura de acordo com o que recebe e com o que precisa comandar. Então Eagleman inverte a lógica. Se você quer operar um braço que não tem, não espere o DNA. O caminho fácil, o caminho que já está aberto, é o cérebro. Basta dar a ele um jeito de mandar comando e receber retorno, que ele aprende a pilotar aquilo.
A raquete vira braço

O exemplo do dia a dia é o mais convincente do capítulo, porque todo mundo já sentiu isso.
Quando você calça um esqui, ou pega uma raquete de tênis, ou segura um martelo, nos primeiros segundos aquilo é um objeto estranho na sua mão. Alguns minutos depois deixou de ser objeto. Você não calcula mais onde a ponta da raquete está, você simplesmente sente. A bola bate na corda e você percebe o toque quase como se tivesse batido na sua própria pele. O esqui vira o final da sua perna. O carro, quando você dirige bem, vira uma extensão do seu corpo, você sente a largura dele, sabe passar num espaço apertado sem medir.
Isso não é força de expressão. O cérebro literalmente estende o mapa do corpo para dentro da ferramenta. Ele passa a tratar aquele objeto como parte de você e a mandar comando para ele com a mesma naturalidade com que mexe um dedo. É o mesmo mecanismo do capítulo passado, só que ao contrário. Lá o cérebro aceitava qualquer sentido novo que entrasse. Aqui ele aceita qualquer corpo novo que ele consiga comandar.
O cérebro pilota qualquer corpo
E aqui o capítulo sai da raquete e vai para o laboratório.
Se o cérebro incorpora uma raquete, por que pararia numa raquete? Eagleman mostra experimentos em que sinais do cérebro são conectados a braços robóticos. A pessoa, ou o animal, aprende a mover aquele braço de metal só com a intenção, sem tocar em nada. No começo o movimento é desajeitado, o cérebro fica testando, mandando comando e vendo o que volta. Com o tempo o braço robótico obedece. Vira um membro a mais.
O bebê faz exatamente isso nos primeiros meses de vida, e a gente nem percebe que é a mesma coisa. O bebê não veio com um manual de como mexer os próprios braços. Ele fica agitando, chutando, esticando, aparentemente sem sentido, e o cérebro vai anotando: mandei esse comando, o braço foi para cá, apareceu isso na visão. É assim que ele descobre qual comando produz qual movimento. Ou seja, o cérebro não nasce sabendo comandar o corpo que tem. Ele aprende a comandar o corpo em que se encontra. E se o corpo mudar, se ganhar um braço a mais, uma prótese, um membro biônico, ele aplica a mesma estratégia e aprende de novo.
Essa é a virada mais importante do capítulo. O cérebro é um piloto genérico. Ele não foi feito para um corpo específico, ele foi feito para descobrir o corpo que estiver plugado nele. Por isso alguém que perde um braço e ganha uma prótese controlada por sinais nervosos consegue, com treino, sentir a prótese como sua. E por isso a fantasia dos braços a mais não é tão fantasia assim, o obstáculo nunca foi o cérebro, foi a engenharia de fora dele.
“Aquilo que eu comando sou eu”
Tem um ponto mais fino, quase filosófico, que Eagleman faz questão de marcar, e é o que fecha o capítulo.
O que faz uma coisa ser sentida como parte do seu corpo não é ela estar grudada em você. É você conseguir comandar aquilo e receber retorno na hora. É esse laço, mando e sinto a resposta, que o cérebro usa para decidir a fronteira do “eu”. Por isso a raquete entra e o carro entra. Por isso a prótese entra. E por isso, do outro lado, quando alguém perde o controle e o retorno de uma parte do corpo, aquela parte começa a ser sentida como alheia, como se não fosse mais dele.
A conclusão é meio vertiginosa. A sensação de onde você termina e o mundo começa não é uma linha desenhada na sua pele. É uma linha desenhada pelo cérebro, e ela é móvel. Você é aquilo que você consegue comandar. Aumente o que você comanda, e o seu corpo aumenta junto.
O que isso tem a ver com Yoga
Tudo, e de um jeito que muda como a gente enxerga a prática.
O capítulo trata de gente aprendendo a comandar braço robótico, prótese, ferramenta. O Yoga trabalha o mesmo mecanismo na direção de dentro. Antes de qualquer corpo novo, tem um corpo que a maioria das pessoas comanda mal, o próprio. A gente passa o dia por cima do quadril, do assoalho, das costelas, da respiração, sem sentir direito onde essas partes estão nem como movê-las com precisão. O mapa existe, só está borrado por falta de uso.
Praticar é passar o comando por esse corpo com atenção e esperar o retorno, exatamente o laço que o cérebro usa para reconhecer o que é seu. Cada vez que você leva a atenção para uma parte, sustenta ali, sente o pequeno ajuste e responde, você não está só alongando. Você está redesenhando, com mais nitidez, o mapa do próprio corpo dentro da cabeça. Está reduzindo a distância entre o comando que você manda e o movimento que acontece.
E é por isso que praticante antigo se move diferente. Não é só flexibilidade. É que o mapa dele do próprio corpo ficou mais detalhado, então ele comanda com mais resolução, sente antes, corrige antes. Eagleman mostra que o cérebro é capaz de adotar até um braço de metal como parte de você. O Yoga faz a jogada mais óbvia e mais poderosa que existe: pega o corpo que você já tem e finalmente te devolve o comando dele.
Se você quer entender, com base em fisiologia e Neurociência, como conduzir uma prática que refina a percepção e o comando do corpo de verdade, é exatamente isso que ensinamos na YogIN® Academy.
No Capítulo 6 eu sigo com a releitura. Acompanhe o blog para não perder.