Quando fechei a série sobre o livro Cérebro em Ação, do David Eagleman, eu prometi que em breve começaria a comentar outro livro aqui no blog. Chegou a hora. O livro é Truth: What It Is, How to Find It, and Why It Still Matters, do Michael Shermer, lançado em janeiro deste ano pela editora da Universidade Johns Hopkins. E, como fiz com o Eagleman, vou dividir em capítulos, um por post. Este é o primeiro.

A homenagem que abre o livro
Confesso que o livro me ganhou logo na primeira página, antes de qualquer argumento. Ele abre com uma homenagem ao Daniel Dennett, que morreu em abril de 2024, e isso me deixou muito feliz, porque eu sou fã da obra dele. Já produzi aulas e já escrevi aqui falando desse filósofo contemporâneo, que passou a vida inteira defendendo que consciência, livre-arbítrio e sentido não precisam de mistério para existir, precisam de explicação.
Não é uma escolha decorativa. Um livro sobre a verdade que começa reverenciando o Dennett já está dizendo de que lado ele joga: o lado de quem acredita que a realidade é investigável, que explicar não é rebaixar, e que a gente consegue, sim, chegar mais perto do que é real do que estava ontem.
Quem é Michael Shermer e o que ele está propondo
O Shermer é historiador da ciência, fundador da Skeptic Society e da revista Skeptic, e assinou por quase duas décadas uma coluna na Scientific American. Ele passou a carreira estudando por que gente inteligente acredita em coisas estranhas, e é dele um dos trabalhos mais conhecidos sobre negacionismo histórico.
A proposta deste livro é direta e ambiciosa. Existe de fato a verdade? Como a gente pode chegar até ela? E o que acontece com o funcionamento de uma sociedade inteira quando ela desiste dessa pergunta?
A frase do Obama que abre o capítulo
Ele começa citando uma fala do Obama: se a gente não tem a capacidade de distinguir o que é verdadeiro do que é falso, então, por definição, o mercado de ideias não funciona, e, por definição, nossa democracia não funciona.
Repare no tamanho do que está sendo dito ali. Não é uma queixa sobre gente mal informada. É uma afirmação sobre a engenharia do sistema. A democracia pressupõe que os cidadãos consigam avaliar propostas, comparar promessas com resultados e punir quem mentiu. Se a capacidade de avaliar some, o mecanismo inteiro roda no vazio. Você continua votando, mas o voto perdeu a função que justificava a sua existência.
O Capitólio, ou o que acontece quando a sinceridade não basta
O exemplo que ele usa para abrir é a marcha dos apoiadores do Trump até o Capitólio, em janeiro de 2021. Aquelas pessoas não estavam fingindo. Elas estavam convencidas de que existia uma verdade ali, de que a eleição tinha sido roubada, e agiram de acordo com essa convicção.
Ao longo do tempo, auditorias, recontagens e dezenas de decisões judiciais mostraram que não era verdade. Só que, para uma parte considerável delas, continuou sendo. E é exatamente esse o ponto que interessa ao Shermer, e que interessa a mim como professor: a sinceridade de quem acredita não diz absolutamente nada sobre a veracidade daquilo em que se acredita. Sentir com força não é evidência. Estar cercado de gente que concorda também não é.
A ciência não entrega a verdade, ela entrega aproximação
Aqui vem a parte que eu considero a mais madura do capítulo, e a que mais separa este livro de um panfleto pró-ciência.
O Shermer não diz que a ciência tem a verdade. Ele diz o contrário: a ciência nunca vai ter a verdade. O que ela produz são apontamentos, conclusões provisórias, sempre abertas a revisão. O que faz esses apontamentos ficarem confiáveis não é uma medição isolada nem a autoridade de quem assina o estudo, é o acúmulo. Evidências independentes, obtidas por métodos diferentes, por pessoas diferentes, que acabam apontando para a mesma direção.

Isso muda a pergunta que a gente deveria fazer diante de qualquer afirmação. Não é “isso é verdade?”, como se a resposta fosse sim ou não. É “o quanto isso está perto da verdade, e com base em quê?”. Cada caso precisa ser avaliado pelo tanto que a gente consegue se aproximar, e essa distância não é a mesma em todos os assuntos.
História não é laboratório, e mesmo assim existe fato
Ele desenvolve isso comparando domínios. Um fato histórico não pode ser reproduzido. A gente não consegue rodar de novo o século passado nas mesmas condições para ver o que acontece. Nesse sentido, a história é mais frágil que a física.
Mas fragilidade não é ausência. Existem relatos, documentos, registros oficiais, vestígios materiais, testemunhos que se cruzam. Quando tudo isso aponta para o mesmo lugar, a aproximação fica muito boa. E aí vem o argumento que fecha a porta: se a gente nega totalmente a possibilidade de conhecer fatos históricos, então é obrigada a aceitar que negar o Holocausto é uma posição tão respeitável quanto afirmá-lo. Ninguém que raciocina com honestidade aceita esse preço.
Um experimento, por outro lado, pode ser repetido quantas vezes você quiser. Se os valores continuam se aproximando dos mesmos resultados, aquele apontamento fica mais preciso do que um fato histórico jamais conseguiria ficar. Então sim, existem graus. Verdade histórica e verdade científica não têm a mesma textura. O erro é concluir daí que nenhuma das duas existe.
A pós-verdade se autodestrói sozinha
O capítulo termina com o argumento de que eu mais gostei, porque ele é elegante e não precisa de dado nenhum para funcionar.
Se alguém afirma que nada é verdade, essa própria frase já se autorrefuta. Como é que eu vou confiar no que essa pessoa acabou de dizer, se ela mesma acabou de dizer que não existe nenhuma verdade? Para a afirmação valer, ela precisa ser verdadeira, e se ela for verdadeira, então existe pelo menos uma verdade, o que a derruba.
O mesmo vale para o próprio rótulo de pós-verdade, palavra que a Oxford elegeu como termo do ano em 2016 e que virou moda desde então. Se a gente está mesmo numa era pós-verdade, como é que a gente sabe disso? Para dizer que agora tudo é mentira, você precisa comparar o agora com um antes que não era, e precisa ser capaz de identificar corretamente em qual dos dois você está. Ou seja, para o diagnóstico funcionar, é obrigatório que a verdade continue acessível. O termo se apoia justamente naquilo que ele diz ter acabado.
É por isso que o Shermer insiste que a verdade importa, que ela pode ser aproximada, e que existem tipos diferentes de verdade, que ele vai destrinchar nos capítulos seguintes.
O que isso tem a ver com Yoga
Tudo, e eu vou ser bem específico.
A nossa área é um campo minado de afirmações fortes sem evidência nenhuma. Determinada respiração cura determinada doença. Determinada postura destrava determinada emoção. Determinada prática reprograma o cérebro em vinte e um dias. Quase sempre a única sustentação oferecida é a sinceridade de quem fala, e o capítulo de hoje mostra por que isso não sustenta nada. As pessoas que marcharam até o Capitólio também eram sinceras.
Do outro lado, existe uma tentação igualmente ruim, e ela é mais comum entre nós do que a primeira. É a de descartar a evidência inteira com frases como “cada corpo é único” ou “a ciência não explica tudo”. Como argumento isolado, essa é a versão da pós-verdade dentro do Yoga, e ela se autorrefuta do mesmo jeito. Se nada pode ser sabido sobre os efeitos da prática, então a sua aula também não pode ser defendida, e o que sobra é opinião contra opinião, com a aluna no meio, sem critério nenhum para escolher.
O caminho honesto é o do meio, e é bem mais interessante que os dois extremos. Ele consiste em perguntar, para cada afirmação que você repete em aula, o quanto ela está perto da verdade e com base em quê. É trocar “está provado” por “as evidências apontam nessa direção”. É valorizar convergência em vez de um estudo isolado que confirma o que você já queria acreditar. E é aceitar que apontar uma direção com honestidade dá mais autoridade do que prometer certeza.
Na prática, isso muda o que você fala na frente da turma. A professora que diz “isso vai curar sua ansiedade” está vendendo uma certeza que ninguém tem. A professora que diz “a Neurociência tem mostrado que respirar mais devagar tende a reduzir a ativação do sistema de alerta, e é isso que a gente vai treinar hoje” está dizendo algo mais modesto e infinitamente mais forte, porque é sustentável. E, o que é melhor, continua sendo verdade amanhã.
Se você quer aprender a ensinar Yoga sabendo separar o que é evidência do que é folclore, é exatamente isso que ensinamos na YogIN® Academy.
No próximo post eu comento o Capítulo 2. Acompanhe para não perder.
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